sexta-feira, 10 de abril de 2015

2º DOMINGO DA PÁSCOA

2º DOMINGO DA PÁSCOA (Adaptado e postado pelo Diácono Ismael)

SINOPSE:
Tema: “Os fiéis eram um só coração e uma só alma!”
Na primeira leitura: A comunidade ideal vive a fé e manifesta o seu amor fraterno em gestos concretos, testemunhando Jesus ressuscitado.
No Evangelho: Jesus vivo e ressuscitado é o centro da comunidade cristã. É na vida da comunidade que os homens encontram as provas de que Jesus está vivo.
A segunda leitura: O verdadeiro crente adere a Jesus Cristo e à proposta de salvação que o Pai faz aos homens e vive no amor aos irmãos.

6. PRIMEIRA LEITURA (At 4,32-35) ...tudo entre eles era posto em comum. Com grandes sinais de poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. E os fiéis eram estimados por todos. Entre eles ninguém passava necessidade, ...levavam o dinheiro e o colocavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a  necessidade de cada um.

AMBIENTE
- Quando Lucas escreve estes relatos (década de 80), o entusiasmo inicial dos cristãos diminuíra: no horizonte próximo estão as perseguições… Neste trecho, Lucas recorda o que a comunidade deve ser.
MENSAGEM - É uma comunidade unida, onde os crentes têm “um só coração e uma só alma”, formando uma família de irmãos que vivem no amor. É uma comunidade que partilha os bens e dá testemunho. Os gestos realizados pelos apóstolos testemunhavam a certeza da presença do Ressuscitado e os torna capazes de superar o egoísmo, o orgulho e a autossuficiência e de viver no amor, na partilha, no dom. Viver os valores de Jesus é a melhor forma de anunciar e de testemunhar que Jesus está vivo.
ATUALIZAÇÃO • A comunidade é uma família unida, onde todos têm “um só coração e alma”.
• No centro está o Cristo do amor, da partilha, do serviço, do dom da vida… Uma comunidade onde alguns esbanjam os bens e onde outros não têm o suficiente para viver dignamente, não é uma comunidade que vive o amor.

10. EVANGELHO (Jo 20,19-31) Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, ...Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”. Depois..., mostrou-lhes as mãos e o lado. ...Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. E depois..., soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados;...”. Tomé, ..., não estava com eles.... Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. Oito dias depois, ...novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”. Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mas fiel”. Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

AMBIENTE
No “primeiro dia da semana”; tempo da nova criação.  João apresenta uma catequese sobre a presença de Jesus, vivo e ressuscitado, no meio dos discípulos. Cristo continua vivo e presente, acompanhando a sua Igreja.
MENSAGEM - Ao aparecer “no meio deles”, Jesus assume-Se como ponto de referência. Jesus transmite a paz. (shalom é a paz com Deus, paz com os outros e paz consigo) Ele venceu aquilo que os assustava (a morte, a opressão do mundo.
Com o “sopro” Jesus transmite a vida nova que fará deles homens novos. É este Espírito que constitui e anima a comunidade de Jesus. Como o Pai enviou o Filho? Na potência do Espírito Santo. É no nesta potência do Espírito que nasce, é batizado, vai para o deserto, e se doa na morte de cruz e ressuscita dentre os mortos. Sopra sobre eles: como no princípio da criação Deus soprara sobre o homem para fazê-lo viver, agora Cristo sopra fazendo-os viver uma vida nova, a vida SOS ressuscitado sem Cristo.  Na segunda parte, João nos diz que podemos fazer a experiência da fé em Cristo na comunidade onde se manifesta o amor de Jesus. Tomé (está fora) não percebe os sinais de vida nova que nela se manifestam. Tomé acaba por fazer a experiência de Cristo vivo no interior da comunidade. É no encontro com o amor fraterno, com o perdão dos irmãos, (sem o perdão não há o shalom) com a Palavra proclamada, com o pão de Jesus partilhado, que se descobre Jesus ressuscitado. Todos os cristãos podem fazer esta mesma experiência. Oito dias depois, Jesus veio e pôs-se no meio deles; é neste encontro que Jesus nos fala, nos instrui e nos fortalece. Tomé, põe teu dedo na ferida: felizes os que não viram e creram
Jesus fez muito mais do que está escrito: isto foi escrito para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Os evangelhos não são uma crônica nem uma biografia de Jesus, mas um ensinamento para que acreditemos em Jesus.
ATUALIZAÇÃO • Cristo está no meio da sua comunidade que partilha e ama.
• É esse Espírito que Jesus oferece que faz deles testemunhas do amor e lhes dá a coragem e a generosidade para continuarem no mundo a obra de Jesus.
• É na comunidade que encontramos Jesus ressuscitado. É nos gestos de amor, partilha, serviço, e fraternidade, que encontramos Jesus vivo, a transformar e a renovar o mundo.
• É no diálogo comunitário, na Palavra partilhada, no pão repartido, no amor que une os irmãos em comunidade de vida.

8. SEGUNDA LEITURA (1Jo 5,1-6) ...todo o que crê que Jesus é o Cristo nasceu de Deus; e quem ama aquele que gerou alguém amará também aquele que dele nasceu. Podemos saber que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e guardamos os seus mandamentos. Pois isto é amar a Deus: observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, pois todo o que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé. Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus? Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. (Não veio somente com a água, mas com a água e com o sangue.) E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade.

AMBIENTE
- O autor da carta é alguém que conhece bem a teologia de João. A difusão de falsas doutrinas ameaçam a pureza da fé. Os heréticos pretendiam “conhecer Deus” e, não obstante, apresentavam uma doutrina em flagrante contradição com a revelação cristã. Recusavam-se a ver em Jesus o Messias e o Filho de Deus. Para estes hereges, o Cristo celeste tinha-Se apropriado do homem Jesus de Nazaré na altura do Batismo, tinha-o utilizado para levar a cabo a revelação e tinha-o abandonado antes da paixão, porque o Cristo celeste não podia padecer: pretendiam não ter pecados e não guardavam os mandamentos. Tudo indica que estejamos diante de um desses movimentos pré gnósticos que irá desembocar, mais tarde, nos grandes movimentos gnósticos do séc. II. Na confusão causada pelas doutrinas heréticas, o autor da Carta quer oferecer uma certeza: são eles e não esses profetas da mentira que vivem em comunhão com Deus e que possuem a vida divina.
MENSAGEM - Os verdadeiros crentes são aqueles que amam a Deus e que amam, também, Jesus Cristo, o Filho que nasceu de Deus. Jesus de Nazaré é Filho de Deus desde a encarnação e durante toda a sua existência terrena.  No entanto, amar a Deus significa cumprir os seus mandamentos. E o mandamento de Deus é que amemos os nossos irmãos. Amar Deus, amar Jesus e amar os irmãos significa construir a própria vida numa dinâmica de amor; e significa, portanto, derrotar o egoísmo, o ódio, a injustiça que caracterizam a dinâmica do mundo. Quando o homem responde positivamente (Batismo), oferece a sua vida como um dom de amor para os irmãos (a exemplo de Cristo) e cumpre os mandamentos de Deus, vence o mundo, torna-se filho de Deus e membro da família de Deus.
ATUALIZAÇÃO • O projeto de salvação que passa por Jesus, que com a sua morte mostrou aos homens o amor do Pai e que nos ensinou a amar até ao extremo do dom total da vida.
• Quem não ama os irmãos, não cumpre os mandamentos de Deus e não segue Jesus. O amor se revela nos gestos simples de serviço, de perdão, de solidariedade, de doação.
• O amor a Deus e a adesão a Cristo “vencem o mundo”. O amor é um dinamismo que vence tudo aquilo que oprime o homem e que o impede de chegar à vida verdadeira e à felicidade total.

-----------=====-------
Quem crê em Jesus, diz ele, vence o mundo, vence o pecado, vence uma vida sem sentido, distraída apenas com eventos, futilidades e copas do mundo. "Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?" "Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. Não veio somente com a água, mas com a água e o sangue. E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade". Se nossos irmãos protestantes as compreendessem pediam a comunhão com a Igreja de Cristo! Aqui o Autor está falando do Batismo e da Eucaristia. Vence o mundo quem crê que Jesus que está vivo, vem ao nosso encontro, habita em nosso íntimo pelos sacramentos! É nos sacramentos que recebemos o Espírito Santo, é nos sacramentos que o Senhor entra em comunhão conosco e nós com ele. Ele vem continuamente, vivo e vivificador pela água do Batismo e o Sangue da Eucaristia! Nos santos sacramentos, nós experimentamos Jesus, recebemos a vida de Jesus e podemos testemunhar ao mundo que Jesus está vivo e atuante!         
         



=================           ==============

HOMILIA DO PE. PEDRINHO

Meus irmãos e irmãs, celebrando o segundo domingo da Páscoa, também chamado de domingo da misericórdia, chamado assim pelo papa João Paulo II, por que ele se deu conta de que as leituras falavam da misericórdia de Deus.  A partir daí, ele que sempre divulgou a cultura da misericórdia, propôs que nesse dia celebrássemos a misericórdia de Deus. A Misericórdia de Deus consiste nisso: Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho único, para que todo o que nele crê, tenha a vida eterna. A misericórdia de Deus penetra toda a realidade humana. É evidente, que nessa realidade humana, não são poucos os obstáculos e desafios. Por isso, Deus quer sempre estar ao lado, como aquele que ama os seus filhos e quer ajuda-los a caminhar.
Sempre que experimentamos a morte, de um amigo, um parente, é sempre muito duro para nós. E não adianta querermos ser diferentes, porque sempre lamentamos a sua convivência, poder abraçar, estar próximo, daqueles que nós amamos. Mas, desculpe o que vou dizer, não existe tempo melhor para celebrar os nossos entes falecidos do que o tempo da Páscoa. Porque é o tempo, que de maneira solene, celebramos a vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e sobre a morte. As leituras falam claramente sobre a ressurreição. Aquilo que nos foi proposto, desde o primeiro domingo da quaresma, se mantém presente. É preciso olharmos o Cristo transfigurado, ir além da imagem que temos. Se formos no velório e vermos a pessoa ali, somos convidados, em nome da fé e com os olhos da fé, enxergar além daquilo que estamos vendo naquele caixão. Ali não é o final, tão somente um estágio superado, para que se possa contemplar Deus face a face e experimentar o Ressuscitado. Isto é algo que é oferecido para todos. Quem vai nos ajudar a compreender a ressurreição, será a comunidade. Olhe o caso de Tomé. Tomé é alguém que está muito próximo de Jesus. Ele é um dos doze. Não vamos dizer que ele não tem fé. Não é verdade. Aliás, eu já fiz esta observação para o autor da música “Creio em ti ressuscitado, mais que São Tomé”. Isto é muita pretensão de nossa parte. Porque ele já é santo e nós ainda não. Eu lhe disse; cuidado com esta música. Eu posso crer em ti, tanto quanto São Tomé, mais do ele, já é complicado. São Tomé tem fé, ouviu a pregação de Jesus, participou da vida de Jesus de maneira intensa, mas na hora de aceitar o ressuscitado, teve dificuldade. Ele disse: eu preciso de algumas referências, algo palpável para isto. Eu preciso tocar o lugar da lança, tocar onde foi colocado os pregos. Quem escreveu o Evangelho vai dizer: Tomé não estava com eles, quando Jesus apareceu. Oito dias depois, Tomé estava com eles e finalmente conseguiu experimentar o Cristo Ressuscitado. Aí vai dizer, que era no primeiro dia da semana. Então, é a comunidade que me ajuda a experimentar o Cristo Ressuscitado. Se por um lado, a realidade da vida me deixa triste, pela perda de alguém, de outro lado, a presença da comunidade me deixa feliz, porque é ali que percebo que a morte não é a ultima palavra. Por isso, se quisermos superar  a dor da perda de alguém, é participando da vida da comunidade. Porque é ali que eu celebro, a cada encontro e experimento Cristo ressuscitado. Ele que me fala, através das leituras,  da Eucaristia que Cristo vive. Quando Tomé perde para ver os sinais, é na celebração, ouvindo a palavra, comungando o Cristo, na comunidade reunida, que vou perceber que Cristo está vivo e permanece entre nós. Na primeira leitura João nos diz que somos amados por Deus e quando amamos os irmãos e seguimos os seus mandamentos, amamos a Deus. É na comunidade que aprendemos quais são os mandamentos do Senhor, é na comunidade que aprendo como viver a fé. A primeira leitura nos mostra que os discípulos se tornaram sinal para o povo de seu tempo, de modo que o que mais era admirado neles, era a unidade na oração, na pertença e participação na vida comunitária. Eles vão ser um sinal de Cristo ressuscitado no seu tempo e vão celebrar a cada semana, mostrando que Cristo ressuscitou. O anúncio do Cristo ressuscitado, não só compõe os mandamentos de Deus, que devem serem animados para que vivam os mandamentos, que é o Cristo misericordioso ressuscitado que perdoa os pecados. Uma vez que me sinto perdoado por Deus, uma vez que eu me reintegro na comunidade, eu já experimento de maneira antecipada a ressurreição do Senhor. Por isso, neste tempo da Páscoa, somos chamados a renovar a nossa fé na ressurreição e assim poder experimentar o Cristo vivo, a cada encontro nosso.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.
PE. PEDRINHO


=============--------------------===============

Homilia de D. Henrique Soares

Jo 20,19-31
          Há oito dias atrás, no primeiro dia após o Sábado dos judeus, ao anoitecer, Jesus ressuscitado entrou onde estavam os discípulos e lhes disse: "A paz esteja convosco!" Há oito dias, no Dia da Ressurreição, o nosso Jesus, vencedor da morte, enviado pelo Pai no Espírito Santo,
 soprou esse mesmo Espírito sobre seus discípulos, sua Igreja, e disse: "Como o Pai me enviou, também eu vos envio. Recebei o Espírito Santo!" Há oito dias atrás, Tomé, teimoso e incrédulo, afirmou peremptoriamente: "Se eu não vir as marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei!" Todas essas coisas que ouvimos no Evangelho deste hoje, ocorreram no Domingo de Páscoa, no Dia da Ressurreição, há precisamente uma semana.

          Hoje é a Oitava da Festa pascal, o Domingo seguinte. E como no Domingo passado, também hoje, neste Domingo, o Senhor vem ao encontro dos seus discípulos e coloca-se no meio deles. Será sempre assim: a cada oito dias os cristãos reunidos experimentarão na Palavra proclamada e no Sacrifício eucarístico celebrado, a presença real, viva e atuante Daquele que ressuscitou e caminha conosco, ou melhor, caminha à nossa frente. E como Tomé, nós, a cada Domingo, admirados, exclamamos: "Meu Senhor e meu Deus!" E queremos, emocionados, ouvi-lo novamente dizer a nossa respeito: "Acreditaste porque me viste, Tomé. Bem-aventurados os que creram sem terem visto!" Bem-aventurados nós, caríssimos meus em Cristo aqui presentes! Bem-aventurados nós que firmemente cremos no Senhor e participamos do seu Sacrifício eucarístico, ainda que não tenhamos visto o Senhor com os olhos da carne!
          Eis precisamente aqui a mensagem deste Domingo da Oitava: fazer-nos conscientes do nosso encontro, da nossa comunhão real, íntima, transformante, com o Senhor ressuscitado. Este encontro que ocorre de modo mais intenso a cada Domingo na Eucaristia – e, por isso mesmo, faltar à Missa dominical é excluir-se da Comunidade dos discípulos, é "ex-comungar-se", é colocar-se fora da Comunhão com o Ressuscitado e aqueles aos quais ele chama de "meus irmãos"... Este encontro que ocorre de modo mais intenso a cada Domingo nesta Eucaristia, não começou aqui; iniciou-se no nosso Batismo, quando recebemos, no símbolo da água, o Espírito Santo do Ressuscitado, passando a viver nele que, no seu Espírito, veio realmente viver em nós! Três misteriosas palavras da Missa de hoje exprimem este mistério. Ei-los: (1) A palavra da segunda leitura: o Autor sagrado afirma que quem crê em Jesus nasceu de Deus e vive uma vida de amor aos irmãos. Quem crê em Jesus, diz ele, vence o mundo, vence o pecado, vence a tragédia de uma vida sem sentido, distraída apenas com eventos, futilidades e copas do mundo. Eis as suas palavras: "Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é o Filho de Deus?" E, então, acrescenta de modo belo, forte, surpreendente e misterioso: "Este é o que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. Não veio somente com a água, mas com a água e o sangue. E o Espírito é que dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade". Caríssimos, que palavras impressionantes! Se nossos irmãos protestantes as compreendessem pediam imediatamente a comunhão com a Igreja de Cristo! Aqui o Autor sagrado está falando do Batismo e da Eucaristia. Vence o mundo quem crê em Jesus; não num Jesus do passado, mas num Jesus que está vivo e na força do Espírito Santo, o Espírito da Verdade, que ele derramou sobre nós, vem ao nosso encontro, habita em nosso íntimo. Como? Pelos sacramentos! É nos sacramentos que recebemos o Espírito Santo, é nos sacramentos que o Senhor entra em comunhão conosco e nós com ele. Ele vem continuamente, vivo e vivificador pela água do Batismo e o Sangue da Eucaristia! Nos santos sacramentos, nós experimentamos Jesus, recebemos a vida de Jesus e podemos testemunhar ao mundo que Jesus está vivo e atuante! Que realidade tão misteriosa; que graça tão grande: Jesus é o que vem sempre à sua Igreja na água e no sangue; e ambos nos dão o Espírito Santo de Jesus! (2) A segunda palavra desta liturgia é da oração inicial. Ali a Igreja nos ensinou a pedir ao Pai que compreendêssemos melhor "o Batismo que nos lavou, o Espírito que nos deu nova vida e o sangue que nos redimiu". Mais uma vez o Batismo e a Eucaristia que, dando-nos o Espírito de Jesus, nos colocam em comunhão íntima com ele. (3) Finalmente, as palavras da Entrada da Missa de hoje, como aparecem no Missal, tiradas da Primeira Epístola de são Pedro: "Como crianças recém-nascidas, desejai o puro leite espiritual para crescerdes na salvação! (2,2). A Igreja pensa nos que foram batizados na Vigília Pascal, nossos irmãozinhos em Cristo, criancinhas no Senhor. Que recebendo a cada Domingo a Eucaristia, puro alimento espiritual, possam – eles e nós – crescer na salvação.
          Ora, caríssimos, se vivemos mergulhados nesse mistério tão grande, que é a real e íntima comunhão com o Senhor ressuscitado, se experimentamos sua força e sua graça nos sacramentos, se nele, Vencedor da morte, somos criaturas nova, então vivamos de modo novo. E não somente de modo individual, mas como Comunidade dos salvos e redimidos por Cristo. Vede, irmãos meus, o exemplo descrito na Primeira leitura, a Igreja católica de Jerusalém, logo após a Ressurreição e o Dom do Espírito: nós éramos "um só coração e uma só alma", sabíamos repartir amor e bens, colocando a vida em comum, e toda a nossa vida comunitária era uma clara proclamação da novidade, da alegria e da esperança de quem sabia e vivia a Ressurreição do Senhor. Dois mil anos após, não damos mais a impressão de um bando de discípulos sonolentos e cansados? Não parecemos mais uns conformados e desanimados, mornos pelo peso do tempo? Nossa vida, será que não exprime mais comodismo e falta de fé, que aquela feliz exultação de quem tem sempre Jesus diante dos olhos? Sabem o motivo disso, meus caros? Falta de comunhão viva com o Senhor na sua Palavra, na oração e, sobretudo, nos sacramentos! Muitos de nós temos uma fé fria, formal, burocrática, teórica. Não é a idéia, mas o amor que dá sentido e gosto à vida!
          Caros meus, aprendamos a nos reaproximar de Jesus! Ele está vivo aqui, na Palavra, na Eucaristia, nos irmãos, na vida. Se aprendermos a vê-lo, mais uma vez, cheios de pasmos, exclamaremos como o duro Tomé:"Meu Senhor e meu Deus!" Que ele no-lo conceda por sua graça. Amém.

D. Henrique Soares

=========-----------------===============



A Comunidade

A liturgia de hoje apresenta a Comunidade Nova,
que nasce da cruz e da ressurreição de Jesus: a IGREJA,
e nos convida a viver a fé em Cristo ressuscitado
em nossas Comunidades.

A 1a Leitura mostra que a PÁSCOA acontece na vida da Comunidade. (At 4, 32-35)

Lucas descreve a comunidade cristã de Jerusalém,
como comunidade ideal, modelo à Igreja e às igrejas de todas as épocas:
- É uma Comunidade formada por pessoas diversas,
mas que vivem a mesma fé "num só coração e numa só alma".
Da adesão a Jesus resulta, obrigatoriamente, a comunhão e
a união de todos os "irmãos" da comunidade.
- É uma Comunidade que partilha os bens.
Da comunhão com Cristo e dos cristãos entre si, resultam implicações práticas:
a renúncia a qualquer tipo de egoísmo, de auto-suficiência
e uma abertura de coração para a partilha, para o dom, para o amor.
"Tudo entre eles era posto em comum, entre eles ninguém passava necessidade".
- Uma comunidade que testemunha o Senhor Ressuscitado.
Viver de acordo com os valores de Jesus é a melhor forma
de anunciar e de testemunhar que Jesus está vivo.

Resultado: - "O fiéis eram estimados por todos… e crescia cada dia"
* Será que daria para dizer o mesmo de nossas comunidades?

A 2ª Leitura afirma que a PÁSCOA acontece quando amamos a Deus
e pomos em prática os seus mandamentos. (1Jo 5, 1-6)

O Evangelho mostra que a PÁSCOA continua acontecendo,
quando todos enfrentam os seus medos, partilhando na Comunidade
a fé e as experiências da vida. (Jo 20,19-31)

São DOIS ENCONTROS da nova Comunidade
com o Cristo Ressuscitado: uma sem Tomé e a outra com Tomé.
É uma catequese sobre a presença de Jesus,
que continua vivo e ressuscitado, acompanhando a sua Igreja:

+ Os Apóstolos estão reunidos, mas "trancados" e
   dominados pela incredulidade, pela tristeza e pelo medo.

* Hoje muitos vivem de "portas trancadas". Dominados pelo medo e
   pela insegurança, aguardam por melhores dias de justiça e de paz.
   O Ressuscitado derruba as trancas e restaura a PAZ e a alegria:
   "A PAZ esteja com vocês" (3x).

+ Inicia uma nova Criação:
   "Jesus soprou sobre eles", como Deus na criação do homem (Gen 2,7)
    e acrescentou: "Recebei o Espírito Santo".
   Com o dom do Espírito Santo, o Senhor ressuscitado inicia um mundo novo
   e com o envio dos discípulos se inaugura um novo Israel,
   que crê em Cristo e testemunha a verdade da Ressurreição.

+ Institui a Penitência: "Aqueles a quem perdoardes os pecados,
   serão perdoados; a quem os retiverdes, ficarão retidos".
   * Uma vez perdoados... são enviados a perdoar em nome de Deus.
   É um Sacramento tipicamente Pascal: nascido num clima de alegria
   e de vitória. 

+ Confia a Missão: "Como o Pai me enviou, assim eu vos envio…"
   Continua acreditando neles… conta com eles… apesar de tudo...
   * Na MISSÃO, Ele conta também conosco, apesar de tudo...

+ No 1º Dia da Semana (ou de um novo tempo), após a Morte e Ressurreição.
   Com esse primeiro dia, começa o "Dia do Senhor", o DOMINGO
   * O que significa para você o Domingo? É de fato o "Dia do Senhor"?

+ Jesus está no "Centro" da Comunidade,
   onde todos vão beber essa vida que lhes permite vencer o "medo"
   e a hostilidade do mundo. É a videira ao redor da qual se enxertam os ramos...
 
 + TOMÉ incrédulo na promessa de Cristo e na palavra dos colegas.
   É protótipo dos que não valorizam o testemunho comunitário
   e exemplo dos que querem ser cristão sem Igreja.

+ Como se chega à fé em Cristo Ressuscitado?
A Comunidade é o lugar natural onde se manifesta e irradia o amor de Jesus.  
Longe da comunidade, Tomé não acreditou na palavra de Jesus, nem dos colegas.
Sua fé se reacendeu, quando no "Dia do Senhor" voltou à Comunidade
e fez um belo ato de fé: "Meu Deus e meu Senhor".
- E Cristo acrescentou: "Felizes os que acreditam sem ter visto…"

* Tomé representa aqueles que vivem afastados da Comunidade,
   sem perceber os sinais de vida que nela se manifestam.

- Esse episódio é uma alusão clara ao Domingo...
Lembra as celebrações dominicais da comunidade primitiva e
a nossa experiência pascal que se renova cada domingo...
A Comunidade renovada na Páscoa do Senhor
torna-se "um só coração e uma só alma".
Nas mesas da fraternidade, da Palavra e da Eucaristia,
nos tornamos com Ele um só corpo e uma só alma.

* O que significa para você a Eucaristia Dominical?

A DIVINA MISERICÓRDIA, que hoje celebramos
é garantia e força para o desempenho de nossa missão.

                                      Pe. Antônio Geraldo

==============-----------------=========

LOUVOR (QUANDO O PÃO SAGRADO ESTIVER SOBRE O ALTAR) - Jo 20,19-31
à COM JESUS, por jesus e em Jesus NA FORÇA DO ESPÍRITO SANTO, LOUVEMOS AO PAI.
T: LOUVOR E GLÓRIA A VÓS, MEU SENHOR E MEU DEUS, ALELUIA!
à Deus da Vida, nós Vos bendizemos pela ressurreição do Vosso Filho Jesus, e pela vida nova que concedeis a todos que o seguem. Nós Vos pedimos por todas as comunidades cristãs.
T: LOUVOR E GLÓRIA A VÓS, MEU SENHOR E MEU DEUS, ALELUIA!
à Bendito sejais, Deus e Pai de Jesus Cristo nosso Senhor, a Vós louvor, honra e glória, porque nos fizestes renascer pela ressurreição de Jesus Cristo. Nós Vos pedimos por todos os nossos irmãos e irmãs que passam provações. Inspirai-nos as palavras que possam suscitar neles coragem e esperança.
T: LOUVOR E GLÓRIA A VÓS, MEU SENHOR E MEU DEUS, ALELUIA!
à Nós Vos damos graças pelo Sopro do Vosso Espírito Santo, que renova as nossas comunidades na Eucaristia. Que a Vossa paz esteja sempre conosco. Que o Vosso Espírito guie a nossa fé e que possamos confessar-Vos: Meu Senhor e meu Deus.
T: LOUVOR E GLÓRIA A VÓS, MEU SENHOR E MEU DEUS, ALELUIA!

à PAI NOSSO... A paz de cristo... eis o cordeiro...



sexta-feira, 3 de abril de 2015

Homilia sexta feira santa

HOMILIA DO PE. PEDRINHO sexta feira santa

Meus irmãos e irmãs, ontem já iniciamos as leituras que nos ajudam a aprofundarmos plenamente na paixão e morte de Jesus Cristo. Ontem falávamos das trevas, um momento e um confronto entre Jesus, que é todo bem, que é toda luz do mundo, contra as Trevas, que simboliza todo mal, todo pecado do mundo. Eu chamava a atenção para que nesse confronto Jesus pudesse tomar a sua decisão maior; ou ser livre, ou fazer a vontade do Pai, a obediência. Ele então, sabendo que seria o único que poderia libertar o mundo do pecado e da morte. Entre a liberdade e a obediência, ele prefere a obediência ao Pai até o fim. Hoje, a liturgia amplia a nossa visão a partir da narrativa da paixão. Sabemos muito bem que Jesus se reconhece como o “Servo sofredor”, a primeira Leitura. Agora, ele então, decide beber o cálice que o Pai lhe ofereceu. Ele sabe que deverá enfrentar o momento da solidão. É uma solidão pensada. Não é uma solidão consequência das atitudes de Jesus. É uma solidão daquele que quer assumir para si, primeira pessoa, a responsabilidade de tudo que vai acontecer e quer poupar os outros. Jesus é muito interessante nesse aspecto. Ele assume a cruz por livre e espontânea vontade, querendo ser obediente ao Pai, mas não quer que esta sua atitude não respingue nos seus discípulos. É a partir dele, que cada um vai decidir o que fazer da sua vida. Jesus aceita ser preso, julgado e condenado, mas que ao outros todos sejam poupados. A atitude de Jesus não pode causar, como consequência, a perseguição dos seus discípulos. E por que isto? Porque é cada um que se vai colocar para servir a Deus. É cada um que vai assumir a cruz diante de seus atos, se julgar que isto é o melhor para ser obediente ao Pai. Nenhum mártir foi mártir chamando os outros juntos, para que na sua atitude singular, pudessem entregar a sua vida pelos outros. É muito interessante observar isto. Jesus disse: A quem procurais? -  A Jesus de Nazaré. – Jesus disse: Sou Eu. Se é a mim que procurais, deixe que os demais vão se embora. Este é um gesto de consolo, é um gesto onde percebemos que Jesus enfrentará a cruz solitário, porque ama, porque ama os seus.
Segundo momento interessante: Aos pés da cruz está Nossa Senhora. É evidente, que ela é mãe como todas as mães, mas temos uma atitude de Nossa Senhora; Jesus estabelece um diálogo com Nossa Senhora. Um diálogo de filho, mas também um diálogo de Deus. Jesus diz: Mulher, este teu filho, porque a atitude dele vai deixar Maria solitária e Ele não quer que ninguém saia lesado com seu gesto. Então, Ele vai substituir a sua presença, pela presença de um outro, que agora vai se tornar filho de Maria; é um João. Ao mesmo tempo, Ele indica para João quem vai ensiná-lo; “filho, esta é a tua Mãe”. Assim como Jesus foi educado por Nossa Senhora, a assumir para si a responsabilidade de seus atos, João precisa aprender também. Por que eu estou dizendo isto? Porque o próprio Evangelho diz que o discípulo que seguia com Pedro todo o julgamento, João, como Pedro, era conhecido do Sumo Sacerdote e ele não move uma palha para ajudar Jesus em nada. Então, ele precisa reaprender o que é ser solidário. Isto ele vai aprender com Maria, com Nossa Senhora. Então, ao mesmo tempo que Jesus providencia alguém que possa fazer companhia a Nossa Senhora, Ele indica, ao mesmo tempo, que com Maria nós podemos aprender a realizar a vontade de Deus. Assim então, Ele está tranquilo. Ele e Deus. Ainda hoje eu ouvia um comentário na televisão, onde as pessoas não compreendem porque Jesus diz “Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonastes”. Seria tão bom se pudéssemos compreender de uma vez por todas, que não é um grito de desespero, mas é um grito do vitorioso. É só ler o salmo inteiro. Por que me abandonastes, mas só tu não me abandonas. Eu vejo que todos me rodeiam como lobos ao redor da presa, como touros brabos, eles esperam para que possam me atingir, mas tu és o meu escudo, és o meu amparo.
Jesus não clama de desespero, mas Jesus estabelece um diálogo com aquele que lhe faz companhia. Jesus sabe muito bem, que conseguiu realizar a sua missão, porque venceu o mal. Ele diz: “Tudo está consumado”. Entrega o seu espírito. Não lhe tira o seu espírito. Ele é que entrega, porque a sua entrega é total. A entrega de seu corpo e de seu sangue para a humanidade, a entrega do espírito para o Pai, do qual Ele veio. Portanto, Ele terminado a sua missão, agora ocupa a direita ao lado do Pai.
Terceiro ponto e aí concluo, senão fica muito longo: nós temos um momento, onde aparentemente, na pessoa de Jesus, Deus se cala. No momento em que Ele entrega o seu espírito, não profere nenhuma palavra. Na realidade, não é bem Deus que se cala; aqui vale um pensamento, conforme disse o Bispo Dom Claudio; “Dentro da mata você só ouve os animais, quando você fizer silêncio”.  Enquanto houver ruído, os animais ficam todos quietos, com medo de serem apanhados. No momento que você fizer silêncio, o passarinho começa a cantar, outro animal começa a se movimentar e você começa a ouvir a mata. Ora, vale este exemplo; não é Deus que se cala, mas é o ser humano que querendo não ficar quieto, não consegue ouvir Deus. Ora, diante da cruz sou chamado a ser como Maria; contemplar a cruz e ela vai me falar sobre tudo. Ela vai me falar sobre o amor, ela vai me falar sobre as injustiças cometidas contra os inocentes,  ela vai me falar sobre todas as formas de mortes e violências por causa do pecado. Mas é preciso contemplar a cruz, mas nem sempre estamos dispostos a contemplar a cruz. Porque a cruz nos mete medo. É sinal que não confiamos totalmente em Deus. Porque senão, o gesto de Jesus seria o nosso gesto. Ninguém precisa se culpar por isto. Nós estamos num processo e numa caminhada. Porque, se ainda tenho medo de enfrentar a cruz e o sofrimento, é sinal de que eu ainda não conheço plenamente o Pai. E se eu não conheço a Deus plenamente, é sinal que também pra mim está sendo indicado Antônio, Maria, Joana, José, Pedro; “Eis a tua mãe”.  E nossa Senhora certamente vai nos ajudar como fazer a vontade de Deus até o fim, a exemplo de Jesus.
Continuemos nossa reflexão e meditação que não para na morte. Nós sabemos muito bem que para quando encontrarmos Deus na ressurreição.  Portanto, continuaremos também amanhã a nossa reflexão, celebrando a vitória de Jesus Cristo sobre o pecado e a morte.

Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo.

PE. PEDRINHO.

==========----------------------==============

Mons. João Scognamiglio Clá Dias, EP
Afirma São Tomás que “o último na ação é o primeiro na intenção”. Pelos derradeiros atos e disposições de alma de quem transpõe os umbrais da eternidade, chegamos a compreender bem qual foi o rumo que norteou sua existência.
No caso de Jesus, não só na morte de cruz, mas também, de forma especial, em suas últimas palavras, vemos o sentido mais profundo de sua Encarnação. Nelas encontramos uma rutilante síntese de sua vida: constante e elevada oração ao Pai, apostolado através da pregação, conduta exemplar, milagres e perdão.
A cruz foi o divino pedestal eleito por Jesus para proclamar suas últimas súplicas e decretos. No alto do Calvário se esclareceram todos os seus gestos, atitudes e pregações. Maria também compreendeu ali, com profundidade, sua missão de mãe.
Jesus é a Caridade. A perfeição dessa virtude, nós a encontramos nas “Sete Palavras”. As três primeiras têm em vista os outros (inimigos, amigos e familiares); as demais, a Si próprio.
1ª Palavra: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34)
Pai — É o mais suave título de Deus. Nessa hora extrema, Jesus bem poderia invocá-Lo chamando-O Deus. Percebe-se, entretanto, claramente a intenção do Redentor: quis afastar, dos fautores daquele crime, a divina severidade do Juiz Supremo, interpondo a misericórdia de sua paternalidade. Chega-se a entrever a força de seu argumento: se o Filho, vítima do crime, perdoa, por que não o fazeis também Vós?
É a primeira “palavra” que os divinos lábios d’Ele pronunciam  na cruz, e nela já encontramos o perdão. Perdão pelos que Lhe infligiram diretamente seu martírio. Perdão que abarca também todos os outros culpados: os pecadores. Nesse momento, portanto, Jesus pediu ao Pai também por mim.
Embora não houvesse fundamento para escusar o desvario e ingratidão do povo, a sanha dos algozes, a inveja e ódio dos príncipes e dos sacerdotes, etc., tão infinita foi a Caridade de Jesus que Ele argumenta com o Pai: “porque não sabem o que fazem”.
A ausência absoluta de ressentimento faz descer do alto da cruz a luminosidade harmoniosa e até afetuosa do amor ao próximo como a si mesmo. Ouvindo essa súplica, chegamos a entender quanta isenção de ânimo havia em Jesus, na ocasião em que expulsou os vendilhões do Templo: era, de fato, o puro zelo pela casa de seu Pai.
2ª Palavra: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43)
A cena não podia ser mais pungente. Jesus se encontra entre dois ladrões. Um deles faz jus à afirmação da Escritura: “Um abismo atrai outro abismo” (Sl 41, 8). Blasfema contra Jesus, dizendo: “Se és o Cristo, salva-te a ti mesmo, e salva-nos a nós” (Lc 23, 39).
Enquanto esse ladrão ofende, o outro louva Jesus e admoesta seu companheiro, dizendo: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram os nossos crimes, mas este não fez mal algum” (Lc 23, 40-41).
São palavras inspiradas, nas quais transparecem a santa correção fraterna, o reconhecimento da inocência de Cristo, a confissão arrependida dos crimes come­tidos. São virtudes que lhe preparam a alma para uma ousada súplica: “Senhor, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!” (Lc 23, 42).
Ao referir-se a Jesus enquanto “Senhor”, o bom ladrão professa sua condição de escravo e reconhece-O como Redentor. O “lembra-te de mim” é afirmativo, não tem nenhum sentido condicional, pois sua confiança é plena e inabalável. Compreende a superioridade da vida eterna sobre a terrena, por isso não pede aquilo que, para o mau ladrão, constitui um delírio: o afastamento da morte, a recuperação da saúde e da integridade.
O bom ladrão confessa publicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo, ao contrário até mesmo de São Pedro, que havia três vezes negado o Senhor. Tal gesto lhe fez merecer de Jesus este prêmio: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23, 43).
Jesus torna solene a primeira canonização da história: “Em verdade…”
A promessa é categórica até quanto à data: hoje. São Cipriano e Santo Agostinho chegam a afirmar ter recebido o bom ladrão a palma do martírio, pelo fato de, por livre e espontânea vontade, haver confessado publicamente a Nosso Senhor Jesus Cristo.
3ª Palavra: “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cleófas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: ‘Mulher, eis aí teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí tua mãe’. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa” (Jo 19, 25-27).
Com essas palavras, Jesus finaliza sua comunicação oficial com os homens antes da morte (as quatro outras serão de sua intimidade com Deus). Quem as ouve são Maria Madalena, representan­do a via da penitência; Maria, mulher de Cleófas, a dos que vão progredindo na vida espiritual; Maria Santíssima e São João, a da perfeição.
Consideremos um breve comentário de Santo Ambrósio sobre este trecho: “São João escreveu o que os outros calaram: [pouco depois de] conceder o reino dos céus ao bom ladrão, Jesus, cravado na cruz, considerado vencedor da morte, chamou sua Mãe e tributou a Ela a reverência de seu amor filial. E, se perdoar o ladrão é um ato de piedade, muito mais é homenagear a Mãe com tanto carinho… Cristo, do alto da cruz, fazia seu testamento, distribuindo entre sua Mãe e seu discípulo os deveres de seu carinho” (in S. Tomás de Aquino, Catena Aurea).
É arrebatador constatar como Jesus, numa atitude de grandioso afeto e nobreza, encerrou oficialmente seu relacionamento com a humanidade, na qual se encarnara para redimi-la. Do auge da dor, expressou o carinho de um Deus por sua Mãe Santíssima, e concedeu o prêmio para o discípulo que abandonara seus próprios pais para segui-Lo: o cêntuplo nesta terra (Mt 19, 29).
É perfeita e exemplar a presteza com que São João assume a herança deixada pelo Divino Mestre: “E dessa hora em diante, o discípulo a levou para a sua casa” (Jo 19, 27). São João desce do Calvário protegendo, mas sobretudo protegido pela Rainha do céu e da terra. É o prêmio de quem procura adorar Jesus no extremo de seu martírio.
4ª Palavra: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27, 45)
Jesus clama em alta voz. Seu brado fende não somente os ares daquele instante, mas os céus da história. Nossos ouvidos são duros, era indispensável falar com força. Jesus não profere uma queixa, nem faz uma acusação. Deseja, por amor a nós, fazer-nos entender a terrível atrocidade de seus tormentos. Assim mais facilmente adquiriremos clara noção de quanto pesam nossos pecados e de quanto devemos ser agradecidos pela Redenção.
Como entender esse abandono? Não rompeu-se — e é impossível — a união natural e eterna entre as pessoas do Pai e do Filho. Nem sequer separaram-se as naturezas humana e divina. Jamais se interrompeu a união entre a graça e a vontade de Jesus. Tampouco perdeu sua alma a visão beatífica.
Perdeu Jesus, isto sim, e temporariamente, a união de proteção à qual Ele faz menção no Evangelho: “Aquele que me enviou está comigo; ele não me deixou sozinho” (Jo 8, 29). O Pai bem poderia protegê-Lo nessa hora (cfr. Mc 14, 36; Mt 26, 53; Lc 22, 43). O próprio Filho poderia proteger seu Corpo (Jo 10, 18; 18, 6), ou conferir-lhe o dom de incorruptibilidade e de impassibilidade, uma vez que sua alma estava na visão beatífica.
Mas assim determinou a Santíssima Trindade: a debilidade da natureza humana em Jesus deveria prevalecer por um certo período, a fim de que se cumprisse o que estava escrito. Por isso Jesus não se dirige ao Pai como em geral procedia, mas usa da invocação “meu Deus”.
A ordem do universo criado é coesa com a ordem moral. Ambas procedem de uma mesma e única causa. Se a primeira não se levanta para se vingar daqueles que dilaceram os princípios morais por meio de seus pecados, é porque Deus lhe retém o ímpeto natural. Se assim não fosse, os céus, os mares e os ventos se ergueriam contra toda e qualquer ofensa feita a Deus. Mas como frear a natureza diante do deicídio? Por isso, na hora daquele crime supremo, “cobriu-se toda a terra de trevas”… (Mt 27, 45).
5ª Palavra: “Tenho sede.” (Jo 19, 28)
Assinala o evangelista que Jesus dissera tais palavras por saber “que tudo estava consumado, para se cumprir plenamente a Escritura”. Vendo um vaso cheio de vinagre que havia por ali, os soldados embeberam uma esponja, “e fixando-a numa vara de hissopo, chegaram-lhe à boca” (Jo 19, 28-29).
Cumpria-se assim o versículo 22 do salmo 68: “Puseram fel no meu alimento; na minha sede deram-me vinagre para beber”.
Qual a razão mais profunda desse episódio? É um verdadeiro mistério.
Jesus derramara boa quantidade de seu preciosíssimo Sangue durante a flagelação. As chagas, em via de cicatrização, foram reabertas ao longo do caminho e ainda mais quando Lhe arrancaram as roupas para crucificá-Lo. O pouco sangue que Lhe restava escorria pelo sagrado lenho. Por isso, a sede tornou-se ardentíssima. Além desse sentido físico, a sede de Jesus significava algo mais: o Divino Redentor tinha sede da glória de Deus e da salvação das almas.
E o que lhe oferecem? Um soldado lhe apresenta, na ponta de uma vara, uma esponja empapada de vinagre. Era a bebida dos condenados.
Podemos de alguma maneira aliviar pelo menos esse tormento de Jesus? Sim! Antes de tudo, compadecendo-nos d’Ele com amor e verdadeira piedade, e apresentando-Lhe um coração arrependido e humilhado.
Devemos querer ter parte nessa sede de Cristo, almejando acima de tudo à nossa própria santificação e salvação, com redobrado esforço, de modo a não pensar, desejar ou praticar algo que a Ele não nos conduza. Para Ele será uma água fresca e cristalina nossa fuga vigilante das ocasiões próximas de pecado. Compadeçamo-nos também dos que vivem no pecado ou nele caem, e trabalhemos por sua salvação. Em suma, apliquemo-nos com ânimo na tarefa de apressar o triunfo do Imaculado Coração de Maria.
O Salvador clama a nós do alto da cruz que defendamos, mais ainda que o bom ladrão, a honra de Deus, procurando conduzir a opinião pública para a verdadeira Igreja. É nosso dever buscar entusiasmadamente a glória de Cristo, “que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor.” (Ef 5, 2).
6ª Palavra: “Tudo está consumado.” (Jo 19, 30)
A Sagrada Paixão terminara e, com ela, a pregação. Todas as profecias haviam se cumprido, conforme interpreta Santo Agostinho: a concepção virginal (Is 7, 14); o nascimento em Belém (Mq 5, 1); a adoração dos Reis (Sl 71, 10); a pregação e os milagres (Is 61, 1; 35, 5-6); a gloriosa entrada em Jerusalém no dia de Ramos (Zc 9,9) e toda a Paixão (Isaías e Jeremias).
Na Cruz foi vencida a guerra contra o demônio: “Agora é o juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo” (Jo 12, 31). No paraíso terrestre, o demônio adquirira de modo fraudulento a posse deste mundo, com o pecado de nossos primeiros pais. Jesus a recuperou como legítimo herdeiro.
Consumado também estava o edifício da Igreja. Este iniciou-se com o batismo no Jordão, onde foi ouvida a voz do Pai indicando seu Filho muito amado, e se concluiu na cruz, na qual Jesus comprou todas as graças que serão distribuídas até o fim do mundo através dos sacramentos.
Para que o preciosíssimo Sangue do Salvador ponha fim ao império do demônio em nossas almas, é preciso que crucifiquemos nossa carne com seus caprichos e delírios, combatendo também o res­peito humano e a soberba. Jesus nos abriu um caminho que, aliás, todos os santos trilharam.
7ª Palavra: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” (Lc 23, 46)
Estabeleceu-se na Igreja, desde os primórdios, o costume de enco­mendar as almas dos fiéis defuntos, a fim de que a luz perpétua os ilumine.
Jesus, porém, não tinha necessidade de encomendar sua alma ao Pai, pois ela havia sido criada no pleno gozo da visão beatífica. Desde o primeiro instante de sua existência, encontrava-se unida à natureza divina na pessoa do Verbo. Portanto, ao abandonar o corpo sagrado, sairia vitoriosa e triunfante. “Meu espírito”, e não alma, provavelmente aqui significaria a vida corporal de Jesus.
Mas Jesus aguardava sua ressurreição para logo. Ao entregar ao Pai a vida que d’Ele recebera, sabia que ela Lhe seria restituída no tempo devido.
Com reverência tomou o Pai Eterno em suas mãos a vida de seu Filho unigênito, e com infinito comprazimento a devol­veu, no ato da ressurreição, a um corpo imortal, impassível e glorioso. Abriu-se, assim, o caminho para a nossa ressurreição, ficando-nos a lição de que ela não pode ser atingida senão pelo calvário e pela cruz.
AVE CRUX, SPES UNICA.

==========--------------------================