quinta-feira, 13 de setembro de 2018

24º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO B, homilias, subsídios homiléticos


24º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO B 2015 (Adaptado pelo Diácono Ismael)
SINOPSE:
Tema: “Tome a sua cruz e me siga.”
Primeira leitura: um profeta que confia no Senhor mesmo na perseguição e morte. Os primeiros cristãos viram neste “servo” a figura de Jesus.
No Evangelho, Jesus é apresentado como o Messias libertador. Jesus mostra que o caminho da vida verdadeira não passa pelos triunfos, mas pelo amor e pelo dom da vida (até à morte); quem quiser ser seu discípulo, tem de aceitar percorrer um caminho semelhante.
A segunda leitura lembra que seguir de Jesus  é com gestos concretos de amor, partilha, serviço  e solidariedade para com os irmãos.
PRIMEIRA LEITURA (Is 50,5-9a) Leitura do livro do profeta Isaías.
O Senhor abriu-me os ouvidos; não lhe resisti nem voltei atrás. Ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba: não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. Mas o Senhor Deus é meu auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo, conservei o rosto impassível como pedra, porque sei que não sairei humilhado. A meu lado está quem me justifica; alguém me fará objeções? Vejamos. Quem é meu adversário? Aproxime-se. Sim, o Senhor Deus é meu auxiliador; quem é que me vai condenar?

AMBIENTE - Deutero-Isaías (cf. Is 40-55). Babilônia. Entre 550 e 539 A.C. Livro da Consolação. O texto é parte do terceiro cântico do “servo de Jahwéh”.
MENSAGEM - O profeta numa entrega total aos desígnios de Deus. Por ser fiel, conheceu a prisão e a tortura. Confia no Senhor e sabe que não ficará desiludido.
ATUALIZAÇÃO •  Para os primeiros cristãos Jesus foi esse “Servo de Deus” que entrou em choque com as forças da opressão e da injustiça, que foi torturado e maltratado porque incomodava os poderosos, … mas Deus ressuscitou e glorificou –O exemplo de Jesus mostra que uma vida colocada ao serviço dos projetos de Deus não termina no fracasso, mas na ressurreição que gera vida nova.
• Para o “Servo de Jahwéh”, Deus é a “rocha segura” que o crente se pode agarrar quando tudo cai. • O “Servo” sofredor mostra-nos o caminho: a vida posta ao serviço da libertação dos pobres não é perdida.

SALMO RESPONSORIAL / 114 (116A)
Andarei na presença de Deus, / junto a ele na terra dos vivos.
• Eu amo o Senhor, / porque ouve o grito da minha oração. / Inclinou para mim seu ouvido / no dia em que eu o invoquei.
• Prendiam-me as cordas da morte, / apertavam me os laços do abismo; / invadiam-me angústia e tristeza; / eu então invoquei o Senhor: / “Salvai, ó Senhor, minha vida!”
• O Senhor é justiça e bondade, / nosso Deus é amor compaixão. / É o Senhor quem defende os humildes: / eu estava oprimido e salvou-me.
• Libertou minha vida da morte, / enxugou de meus olhos o pranto / e livrou os meus pés do tropeço. / Andarei na presença de Deus, / junto a Ele na terra dos vivos.

EVANGELHO (Mc 8,27-35) Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos.
Naquele tempo, Jesus partiu com seus discípulos para os povoados de Cesareia de Filipe. No caminho perguntou aos discípulos: “Quem dizem os homens que eu sou?” Eles responderam: “Alguns dizem que tu és João Batista; outros, que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas”. Então ele perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Messias.”Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito. Em seguida, começou a ensiná-los, dizendo que o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos Sumos Sacerdotes e doutores da lei; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias. Ele dizia isso abertamente. Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo. Jesus voltou-se, olhou para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: “Vai pra longe de mim, satanás! Tu não pensas como Deus, e sim como os homens”. Então chamou a multidão com seus discípulos e disse: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”.
AMBIENTE - “Tu és o Messias”. No entanto, Jesus não veio ao mundo para cumprir um destino de triunfos e de glórias humanas, mas para oferecer a sua vida em dom de amor aos homens. Ponto alto desta “catequese” é a afirmação do centurião romano junto da cruz: “Este homem era o Filho de Deus” (Mc 15,39). 
MENSAGEM Pedro dá voz à comunidade: Jesus é o Messias libertador que Israel esperava; Jesus explica que a sua missão passa pela cruz (como dom da vida, por amor). (“João Baptista”, “Elias”, ou “algum dos profetas”). Na perspectiva dos “homens”, Jesus é apenas um homem bom, justo, generoso, que Se esforçou por ser um sinal vivo de Deus, como tantos outros homens antes d’Ele.  A opinião dos discípulos vai muito além. Pedro resume na expressão: “Tu és o Messias”. Ele é esse libertador que Israel esperava, enviado por Deus para libertar o Povo oferecer a salvação definitiva. No entanto, o título de Messias estava conotado com esperanças político-nacionalistas. Por isso, os discípulos recebem ordens para não falarem disso a ninguém. Era preciso completar a catequese sobre o Messias e a sua missão, para evitar perigosos equívocos.
Na segunda parte, há duas questões. A primeira que o seu messianismo passa pela cruz; a segunda  é uma instrução sobre as exigências de ser discípulo de Jesus. A oposição de Pedro significa que a sua compreensão do mistério de Jesus ainda é imperfeita. Para ele, a missão do “messias, Filho de Deus” é uma missão gloriosa e vencedora; a vitória não pode estar na cruz e no dom da vida. Jesus dirige-se a Pedro com dureza, pois é preciso que os discípulos corrijam a sua perspectiva de Jesus e do plano do Pai que Ele vem realizar. O plano de Deus não passa por triunfos humanos, nem por esquemas de poder e de domínio; mas o plano do Pai passa pelo dom da vida e pelo amor até às últimas consequências. Pedro está repetindo as tentações no início do seu ministério; por isso, Jesus responde a Pedro: “Vai-te, Satanás”.
Depois de anunciar o seu caminho, Jesus convida os seus discípulos a seguir o mesmo caminho. Quem quiser ser discípulo, tem de “renunciar a si mesmo”, “tomar a cruz” e seguir Jesus no caminho do amor, da entrega e do dom da vida.
É renunciar ao egoísmo e autossuficiência, para fazer da vida um dom a Deus e aos outros. O cristão não pode viver preocupado apenas nos seus sonhos pessoais, de riqueza, de segurança, de bem estar, de domínio, de êxito, de triunfo… O cristão deve fazer da sua vida um dom a Deus e aos irmãos. Só assim ele poderá ser discípulo de Jesus e integrar a comunidade do Reino.
O “tomar a cruz”  e segui-lo é a expressão de um amor total, que se dá até à morte. Significa a entrega da própria vida por amor. É ser capaz de gastar a vida por amor a Deus e para que os irmãos sejam felizes. Oferecer a vida por amor não é perdê-la, mas ganhá-la. A vida verdadeira Deus oferece a quem vive de acordo com as suas propostas.
ATUALIZAÇÃO • Quem é Jesus? Muitos vêem em Jesus um homem bom, um  “mestre” de moral, um revolucionário preocupado em construir uma sociedade mais justa e mais livre, que procurou promover os pobres e os marginais e que foi eliminado pelos poderosos.
•  A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no triunfo, no êxito;
. A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos; garante-nos que a vida só faz sentido se assumirmos os valores do Reino e vivermos no amor, na partilha, no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade.
• Ser cristão é bem mais do que ser batizado, ter casado na igreja … Ser cristão é seguir Jesus no caminho do amor e do dom da vida;  é aquele que renuncia a si mesmo e que toma a mesma cruz de Jesus.
• O que é “renunciar a si mesmo”? É não deixar que o egoísmo, o orgulho, o comodismo, a autossuficiência dominem a vida. O seguidor de Jesus vive para Deus e na solidariedade, na partilha e no serviço aos irmãos.
• O que é “tomar a cruz”? É amar até às últimas consequências (gastando o seu dia-a-dia na construção do Reino) para que os seus irmãos sejam mais livres e mais felizes. Por isso, o cristão luta contra a injustiça, a exploração, a miséria,  mesmo que isso signifique represálias dos poderosos.

SEGUNDA LEITURA (Tg 2,14-18) Leitura da Carta de Tiago.
Meus irmãos, que adianta alguém dizer que tem fé, quando não a põe em prática? A fé seria então capaz de salvá-lo? Imaginai que um irmão ou uma irmã não tem o que vestir e que lhes falta a comida de cada dia; se então alguém de vós lhes disser: “Ide em paz, aquecei-vos”, e: “Comei à vontade”, sem lhes dar o necessário para o corpo, que adiantará isto? Assim também a fé, se não se traduz em obras, por si só está morta. Em compensação, alguém poderá dizer: “Tu tens a fé e eu tenho a prática! Tu, mostra-me a tua fé sem as obras, que eu te mostrarei a minha fé pelas obras!”

AMBIENTE - A fé concretiza-se no amor ao próximo; a fé expressa-se, não através de ritos, mas através de ações concretas em favor do homem.
MENSAGEM - A tese do autor é que a fé sem obras não serve para nada.
Paulo, na Carta aos Romanos, considera que “é pela fé que o homem é justificado, independentemente das obras da Lei” (Rom 3,28); (Lutero: salvação pela fé). No texto da Carta de Tiago ele quer dizer é que a fé tem de traduzir-se em ações concretas de compromisso com o mundo e com os homens. Se isso não acontecer, essa fé é apenas uma declaração de boas intenções, mas que não passa de uma farsa sem valor e sem conteúdo. Essa vida, interiorizada e assumida, tem de transparecer em gestos de amor, de solidariedade, de fraternidade, de serviço, de partilha, de perdão. Se isso não acontece, quer dizer que a fé é uma mentira.
Os bonitos discursos que fazemos não passam de belas palavras que podem não significar nada. Quando um irmão tem fome, ou não tem que vestir, ou está a sofrer, é preciso ir ao seu encontro e manifestar-lhe, com gestos concretos, o nosso amor, a nossa solidariedade, a nossa fraternidade. A nossa religião tem de manifestar-se na vida e tem de transparecer nos nossos gestos.
ATUALIZAÇÃO •  O que caracteriza um cristão não é o conhecimento de belas fórmulas que expressam uma determinada ideologia, nem o cumprimento de ritos vazios, nem uma assinatura feita no livro de batismo da paróquia, mas é a adesão a Cristo. Ora, aderir a Cristo (fé), significa seguir Cristo no caminho do amor a Deus e da entrega total aos irmãos. A nossa caminhada cristã não é um processo teórico de belas palavras; mas é um compromisso efetivo com Cristo que tem de se traduzir em gestos concretos em favor dos irmãos.
• Que gestos são esses? São os mesmos gestos que Cristo realizou e que o tornaram um sinal de Deus. Cristo lutou pela justiça e pela verdade, denunciou tudo aquilo que escravizava o homem e o impedia de ser feliz, foi ao encontro dos marginalizados e manifestou-lhes o amor de Deus, realizou gestos de serviço e de partilha, distribuiu o perdão e a paz, ofereceu a sua própria vida para salvar os seus irmãos. Assim, quem segue a Cristo tem de lutar contra as estruturas que geram injustiça e opressão; tem de acolher e amar aqueles que a sociedade marginaliza e rejeita; tem de denunciar uma sociedade construída sobre esquemas de egoísmo e de mostrar, com o seu testemunho, que só a partilha e o amor tornam o homem feliz; tem de quebrar a espiral da violência e do ódio e propor a tolerância e o amor…
• Por vezes há uma profunda dicotomia, nas nossas comunidades cristãs, entre a fé e a vida. Na vida da comunidade, há desunião, há conflito, há falta de solidariedade, há indiferença para com as necessidades do irmão, há críticas destrutivas, há palavras que ferem e afastam os outros, há gestos de arrogância, há falta de amor… De acordo com os ensinamentos da Carta de Tiago, a nossa religião será verdadeira se não se traduzir em gestos concretos de amor e de fraternidade?
Pe. Joaquim, Pe. Barbosa, Pe. Carvalho
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Primeiro. A pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” Notem que as respostas são muitas: umas erradas, outras imprecisas, nenhuma satisfatória.
Segundo: “E vós, quem dizeis que eu sou?”: quem é Jesus para mim? Que papel desempenha na minha vida? nossa sociedade ocidental vira as costas para o Cristo, julgando-o anacrônico e ultrapassado.
Terceiro. Pedro respondeu: “Tu és o Messias!”, “Tu és o Cristo, o Esperado de Israel, aquele que Deus prometera aos nossos Pais!” em São Mateus, Jesus declara: “Não foi carne nem sangue que te revelaram isto, mas o meu Pai que está nos céus” (Mt 16,15). Aqui é muito importante compreender que a nossa fé é pessoal, mas nunca individual: cremos na fé da Igreja, cremos no Cristo da Igreja, cremos como Igreja e com a Igreja. Uma outra fé, um outro Cristo seriam triste ilusão!
Quarto. “Jesus proibiu-lhes de falar a seu respeito”. havia o perigo de pensar o messias do sucesso, das curas, dos shows da fé, dos palanques políticos, etc. Jesus somente afirmará de modo público que é o Messias quando estiver preso, amarrado, diante do Sumo Sacerdote. Aí já não haverá ocasião para engano. Também nós, muitas vezes, não temos a tentação de querer um Cristo do nosso modo, sob a nossa medida, para nosso consumo? Amamos o Cristo como ele é ou como gostaríamos? Estamos realmente dispostos a ir com ele até o fim, crendo nele e nele nos abandonando?
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Tome a sua Cruz
Nesse mês dedicado à Bíblia, somos convidados a valorizar ainda mais a Palavra de Deus em nossa vida.

O tema central das leituras bíblicas de hoje é:
- O Caminho escolhido por Cristo e
- O Caminho apontado por Cristo a seus seguidores...

A 1a leitura fala do "Servo de Javé" (Is 50,5-9)

- Os judeus tinham uma idéia triunfalista do Messias… esperavam um grande rei, que iria devolver ao povo glórias perdidas...  um personagem importante, que iria resolver todos os problemas…
Nunca imaginaram um messias humilde e sofredor…
- Isaías apresenta um profeta anônimo, chamado por Deus a testemunhar a Palavra da salvação e que, para cumprir essa missão, enfrenta a perseguição, a tortura, a morte. Mas Ele confia no Senhor.
Por isso, mesmo quando acusado, tem certeza da vitória.

* Os primeiros cristãos viram neste "Servo Sofredor" a figura de Jesus.

No Evangelho, Jesus faz o 1º Anúncio da Paixão. (Mc 8,27-35)

O texto reflete a  mentalidade triunfalista dos judeus e dos apóstolos.
Tem três partes: A Confissão de Pedro, o Anúncio da Paixão e o Convite de Jesus para seu Seguimento e as Condições…

Jesus está a CAMINHO de Jerusalém:

1) Uma pergunta: Quem é Jesus?
    - Para o Povo: É apenas um HOMEM, convocado por Deus e enviado ao mundo com uma missão,
      como os PROFETAS do Antigo Testamento.
    - Para o Grupo: É o MESSIAS libertador que Israel esperava...  Pedro acerta na resposta... mas erra logo em seguida na prática...

2) O CAMINHO de Jesus:
  - Jesus explica aos discípulos que a sua Missão messiânica passa pela CRUZ.
  - Pedro reage e tenta afastar Jesus do Plano do Pai.
  - Jesus lhe responde: "Vai para trás de mim, Satanás..."

3) O CAMINHO dos discípulos: é semelhante...
- Deve RENUNCIAR a si mesmo, tomar a CRUZ e SEGUIR Jesus,  no caminho do Amor, da entrega e do dom da Vida.  Quem é capaz de dar a vida a Deus e aos irmãos, ganha a vida eterna...

* O texto nos ilustra a lógica dos homens (Pedro) e a lógica de Deus (Jesus).
- A lógica dos homens aposta no poder, no domínio, no êxito, dinheiro, fama...
- A lógica de Deus aposta na entrega da vida a Deus e aos irmãos, assumindo os valores do Reino e vivendo no amor, na partilha,  no serviço, na solidariedade, na humildade, na simplicidade.

QUEM É JESUS?

+ O que "os homens" dizem de Jesus?

- Muitos vêem em Jesus um HOMEM bom, um MESTRE admirável,  um grande LIDER REVOLUCIONÁRIO,
  preocupado em construir uma sociedade mais justa e fraterna.   "Um homem" extraordinário... mas um HOMEM apenas.

+ Quem é Cristo para nós?

Aproxima-se a abertura do "Ano da Fé", anunciado por bento XVI e a pergunta de Cristo aos discípulos no evangelho, é muito atual: "Mas vós, quem dizeis que eu sou?"
Jesus não deseja que paremos naquilo que se diz dele, mas que tenhamos um encontro pessoal com ele e o sigamos.

+ Cristo continua a convidar discípulos para segui-lo...
E as condições são ainda hoje as mesmas: Renúncia e Cruz...
Sem a Cruz, é impossível entender quem é Jesus e o que significa segui-lo.

Na 2ª Leitura Tiago lembra que o seguimento de Jesus se realiza com gestos concretos de amor, de partilha, de serviço e de solidariedade. (Tg 2.14-18)


O que significa a Cruz em nossa vida?
Uma desgraça… Ou uma oportunidade de libertação e de salvação?
- Renunciamos a nós mesmo em favor dos outros?
  Ou talvez somos nós uma CRUZ  para os outros ?

Nós carregamos a cruz toda vez que sacrificamos a nós mesmos para praticar o bem e fazer alguém feliz.

- Sinto-me de fato um "Seguidor de Cristo?"
                                             Pe. Antônio Geraldo

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Homilia de D. Henrique Soares
O Evangelho que acabamos de ouvir apresenta-nos, caríssimos, alguns dos aspectos mais essenciais da nossa fé cristã, aspectos que jamais poderemos esquecer se quisermos ser realmente fiéis a Nosso Senhor. Vejamo-los um a um:
Primeiro. A pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que eu sou?” Notem que as respostas são muitas: umas erradas, outras imprecisas, nenhuma satisfatória. Estejamos atentos a este fato: somente a razão humana, entregue às suas próprias forças, jamais alcançará verdadeiramente o mistério de Cristo. A verdade sobre o Senhor, sua realidade mais profunda, sua obra salvífica, o mistério de sua pessoa e de sua missão, sua absoluta necessidade para que o mundo encontre salvação, vida e paz somente podem ser compreendidos à luz da fé, isto é, daquela humilde atitude de abertura para o Senhor que nos vem ao encontro e nos fala. O homem fechado em si mesmo, preso no estreito orgulho da sua razão, jamais poderá de verdade penetrar no mistério de Cristo e experimentar a doçura de sua salvação. Quanto já se disse de Jesus; quanto se diz hoje ainda: já tentaram descrevê-lo como um simples sábio, como um homem bom e justo, como uma espécie de pacifista, como um pregador de uma moral humanista, como um revolucionário, o primeiro comunista, como um hippie, etc. Nós, cristãos, não devemos nos iludir nem nos deixar levar por tais visões do nosso Divino Salvador. Jesus é e será sempre aquilo que a Igreja sempre experimentou, testemunhou e ensinou sobre ele: o Filho eterno do Pai, Deus com o Pai e como o Pai, o Messias, o único Salvador da humanidade, através de quem e para quem tudo foi criado no céu e na terra. Qualquer afirmação sobre Jesus que seja menos que isso, não é cristã e deve ser rejeitada claramente pelos cristãos!
Segundo. Ante as opiniões do mundo, o Senhor dirige a pergunta a nós, seus discípulos: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Em cada geração, todos nós e cada um de nós devemos responder quem é Jesus. Não se trata de uma resposta somente teórica, teológica, digamos assim. Trata-se de uma resposta que deve ter sérias repercussões na nossa vida. Então: quem é Jesus para mim? Que papel desempenha na minha vida? Como me relaciono com ele? Amo-o? Procuro-o na oração, procuro de todo o meu coração viver na sua palavra? Estou disposto a construir minha existência de acordo com a sua verdade? Deixo-me julgar por ele ou eu mesmo, discretamente, procuro julgá-lo? São perguntas muito atuais, caríssimos, sobretudo hoje, quando nossa sociedade ocidental vira as costas para o Cristo, julgando-o anacrônico e ultrapassado. Agora que a nossa cultura já não considera mais Jesus como aquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida, mas julga que a própria razão humana, com seus humores e pretensões, é que é a Verdade e a Luz, é, mais que nunca, essencial que nós proclamemos com a vida, com a palavra e com os costumes que Jesus é realmente o nosso Senhor, o nosso critério, a nossa única Verdade!
Terceiro. Pedro respondeu quem é Jesus: “Tu és o Messias!”, isto é, “Tu és o Cristo, o Esperado de Israel, aquele que Deus prometera aos nossos Pais!” Recordai, meus caros, que na mesma passagem, em São Mateus, Jesus declara claramente: “Não foi carne nem sangue que te revelaram isto, mas o meu Pai que está nos céus” (Mt 16,15). Insisto: somente o Pai, na potência do Santo Espírito que habita em nós e na Igreja como um todo, é que pode revelar-nos quem é Jesus. A fé não é uma experiência acadêmica, não é fruto de estudos, não se resume a uma especulação teológica. Para um cristão, crer é entrar na experiência que há dois mil anos a Igreja vem fazendo na Palavra, nos sacramentos, na vida de cada dia: a experiência do Cristo Senhor, que foi morto pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa vida e justificação. Quem se coloca fora dessa fé, da fé da Igreja, já não é realmente cristão! Aqui é muito importante compreender que a nossa fé é pessoal, mas nunca individual: cremos na fé da Igreja, cremos no Cristo da Igreja, cremos como Igreja e com a Igreja. Uma outra fé, um outro Cristo seriam triste ilusão!
Quarto. O Evangelho nos surpreende com uma afirmação: “Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a seu respeito”. Por quê? Porque havia o perigo de pensar nele como um messias glorioso, um messias como os sonhos dos judeus haviam fabricado: o messias do sucesso, das curas, dos shows da fé, dos palanques políticos, etc. Jesus somente afirmará de modo público que é o Messias quando estiver preso, amarrado, diante do Sumo Sacerdote. Aí já não haverá ocasião para engano. Mas, aqui a pergunta? Também nós, muitas vezes, não temos a tentação de querer um Cristo do nosso modo, sob a nossa medida, para nosso consumo? Amamos o Cristo como ele é ou o renegamos quando não faz como gostaríamos? Estamos realmente dispostos a ir com ele até o fim, crendo nele e nele nos abandonando?
Quinto. Exatamente para deixar claro que tipo de Messias ele é, Jesus começa a dizer “que o filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias. Ele dizia isso abertamente”. Eis, caríssimos, o tipo de Messias, o tipo de Salvador, o tipo de Deus que Jesus é! Será que nos interessa? Estamos nós dispostos a seguir um Mestre assim?
Sexto. Não será a nossa a mesma atitude de Pedro, que repreende Jesus, que desejaria um mestre mais racional, mais palatável, menos radical? Não é essa a maior tentação nossa: um Cristo sem cruz, um cristianismo sem renúncia, uma vida cristã que não nos custe nada?
Sétimo. A resposta de Jesus é clara, curta e dirigida perenemente a todos nós: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem quiser perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salva-la!” O caminho é este, sem máscara, sem acordos, sem jeitinhos! Nosso Senhor nunca nos enganou; sempre disse claramente quais as condições para segui-lo…
Caríssimos, saiamos hoje daqui com estas palavras que nos incomodam, nos provocam e nos desafiam. Que ele nos conceda a graça de reconhecê-lo como nosso único Salvador, de segui-lo como nossa única Verdade e de nele viver como nossa única Vida, ele que é bendito pelos séculos dos séculos. Amém.
D. Henrique Soares da Costa 

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Carregar a Cruz
Jesus está a caminho de Jerusalém. E enquanto caminhava perguntou, em tom familiar, aos discípulos que O acompanhavam: “Quem dizem os homens que eu sou?” (Mc 8,27-35). E eles, com simplicidade, contaram-lhe o que lhes chegava aos ouvidos: “Alguns dizem que tu és João Batista; outros que és Elias… Então Ele voltou a interrogá-los: “E vós, quem dizeis que eu sou?”
Jesus explicava aos discípulos que a sua Missão messiânica passa pela Cruz.
Pedro reage e tenta afastar Jesus do Plano do Pai.
Jesus lhe responde: “Vai para longe de mim, satanás!
Porém, antes Pedro dissera: “Tu és o Messias.”
Os Apóstolos, pela boca de Pedro, deram a Jesus a resposta certa depois de dois anos de convivência e trato. Nós, como eles, “temos de percorrer um caminho de escuta atenta, diligente. Temos de ir à escola dos primeiros discípulos, que são as suas testemunhas e os nossos mestres, e ao mesmo tempo temos de receber a experiência e o testemunho nada menos que de vinte séculos de história sulcados pela pergunta do Mestre e enriquecidos pelo imenso coro das respostas dos fiéis de todos os tempos e lugares” (Beato João Paulo II).
Também nós que estamos seguindo o Mestre devemos examinar hoje, na intimidade do nosso coração, o que Cristo significa para nós. Digamos como São Paulo: “As coisas que eram lucros para mim, considerei-as prejuízo por causa de Cristo. Mais que isso, julgo que tudo é prejuízo diante deste bem supremo que é o conhecimento do Cristo Jesus, meu Senhor. Por causa dele, perdi tudo e considero tudo como lixo, a fim de ganhar Cristo e ser encontrado unido a Ele.” (Fl 3,7-9).
A primeira preocupação do cristão deve, pois, consistir em viver a vida de Cristo, em incorporar-se a Ele, como os ramos à videira. O ramo depende da união com a videira, que lhe envia a seiva vivificante; separado dela, seca e é lançado ao fogo.
Diz Jesus: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga.”
Quando Jesus disse “se alguém quer vir após Mim…”, tinha presente que o cumprimento da Sua missão O levaria à morte de cruz; por isso fala claramente da Sua Paixão. Mas também a vida cristã, vivida como se deve viver, com todas as suas exigências, é uma cruz que se deve levar em seguimento de Cristo.
As palavras de Jesus, que devem ter parecido assustadoras àqueles que as escutavam, dão a medida do que Cristo exige para O seguir. Jesus não pede um entusiasmo passageiro, nem uma dedicação momentânea; o que pede é a renúncia de si mesmo, o carregar cada um a sua cruz e o segui-Lo. Porque a meta que o Senhor quer para os homens é a vida eterna. O texto do Evangelho de hoje mostra o destino eterno do homem. À luz dessa vida eterna é que deve ser avaliada a vida presente! A vida terrena não tem um caráter definitivo, nem absoluto, mas é transitória, relativa; é um meio para conseguir aquela vida definitiva do Céu. “Tudo isso, que te preocupa de momento, é mais ou menos importante.- o que importa acima de tudo é que sejas feliz, que te salves” (Caminho, 297).
“Há no ambiente uma espécie de medo da Cruz, da Cruz do Senhor. Tudo porque começaram a chamar cruzes a todas as coisas desagradáveis que acontecem na vida, e não sabem aceitá-las com sentido de filhos de Deus, com visão sobrenatural!”
A exigência do Senhor inclui renunciar à própria vontade para identificá-la com a de Deus, não aconteça que, como comenta São João da Cruz, tenhamos a sorte de muitos “que queriam que Deus quisesse o que eles querem, e entristecem-se de querer o que Deus quer, e têm repugnância em acomodar a sua vontade à de Deus. Disto vem que muitas vezes, no que não acham a sua vontade e gosto, pensam não ser da vontade de Deus e, pelo contrário, quando se satisfazem, creem que Deus Se satisfaz, medindo também a Deus por si, e não a si mesmos por Deus” (Noite Escura, liv. I, Cap. 7, nº. 3).
O fim do homem não é ganhar os bens temporais deste mundo, que são apenas meios ou instrumentos; o fim último do homem é o próprio Deus, que é possuído como antecipação aqui na terra pela Graça, e plenamente e para sempre na Glória. Jesus indica qual é o caminho para conseguir esse fim: negar-se a si mesmo (isto é, tudo o que é comodidade, egoísmo, apego aos bens temporais) e levar a cruz. Porque nenhum bem terreno, que é caduco, é comparável à salvação eterna da alma. Diz São Tomás: “O menor bem da Graça é superior a todo o bem do universo” (Suma Teológica, I-II, q.113, a. 9).
“Cristo repete-o a cada um de nós, ao ouvido, intimamente: a Cruz de cada dia. Não só, escreve São Jerônimo, em tempo de perseguição ou quando se apresente a possibilidade do martírio, mas em todas as situações, em todas as atividades, em todos os pensamentos, em todas as palavras, neguemos aquilo que antes éramos e confessemos o que agora somos, visto que renascemos em Cristo. Vedes? A cruz de cada dia. Nenhum dia sem Cruz: nenhum dia que não carreguemos com a Cruz do Senhor, em que não aceitemos o Seu jugo. E muito certo que aquele que ama os prazeres, que busca as suas comodidades, que foge das ocasiões de sofrer, que se inquieta, que murmura, que repreende e se impacienta porque a coisa mais insignificante não corre segundo a sua vontade e o seu desejo, tal pessoa, de cristão só tem o nome; somente serve para desonrar a sua religião, pois Jesus Cristo disse: aquele que queira vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz todos os dias da vida, e siga-Me.”
A Cruz não só deve estar presente na vida da cada cristão. Mas também em todas as encruzilhadas do mundo. Diz São Josemaria Escrivá: “Que formosas essas cruzes no cimo dos montes, no alto dos grandes monumentos, no pináculo das catedrais!…Mas também é preciso inserir a Cruz nas entranhas do mundo.
Jesus quer ser levantado ao alto, aí: no ruído das fábricas e das oficinas, no silêncio das bibliotecas, no fragor das ruas, na quietude dos campos, na intimidade das famílias, nas assembleias, nos estádios… Onde quer que um cristão gaste a sua vida honradamente, aí deve colocar, com o seu amor, a Cruz de Cristo, que atrai a Si todas as coisas” (Via Sacra, XI).
A Cruz é sinal do cristão. Está presente em toda parte, com muitos nomes…
Que o Senhor nos conceda a graça de também segui-Lo na Cruz; de perder a vida por causa de Cristo para salvá-la.
Mons. José Maria Pereira


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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ
O evangelho deste XXIV Domingo do Tempo Comum, geralmente chamado de “Confissão de Pedro”, representa no esquema teológico de Marcos um momento decisivo, pois estamos no coração deste escrito. O questionamento de Jesus em relação à percepção que o povo tem Dele e, em seguida, a resposta dos discípulos cujo porta-voz é Pedro encerram a primeira parte do livro (Mc 1,14-8,29). Sem dúvida, Jesus é o Messias, o Ungido de Deus, aquele que fora anunciado pelos profetas e esperado pelo povo. Contudo, não basta afirmar a sua messianidade, pois esta ainda não é a grande novidade da Sua Pessoa. É preciso, porém, deixar claro em que sentido Jesus é o Messias. Marcos já havia antecipado a resposta: “Princípio do evangelho de Jesus, o Messias, o FILHO DE DEUS”.
Eis a grande novidade que representou para muitos um verdadeiro escândalo e causa de acusações para condená-lo à morte: “O Sumo Sacerdote o interrogou de novo: ‘És tu o Messias, o Filho do Deus Bendito?’, Jesus respondeu: ‘Eu Sou...’ O Sumo Sacerdote, rasgando as vestes, disse: ‘Ouvistes a blasfêmia?’ E todos julgaram-no réu de morte” (Mc 14,61s). Jesus não foi condenado à morte por ter sido identificado como um messias, pois no seu tempo havia alguns outros que se tinham proclamado assim e nem por isso sofreram a pena capital. Para nós, Messias e Filho de Deus têm o mesmo significado. Mas para os primeiros ouvintes deste anúncio isto criava no mínimo uma confusão e um choque com a mentalidade monoteísta veterotestamentária. Pois nunca se tinha dito algo assim tão ousado. 
Por conseguinte, o Messias Jesus provocou os seus discípulos a fim de que dessem um passo qualitativo na sua decisão de segui-lo. Não bastava apenas seguir um messias, pois poderia acontecer mais uma vez um engano, até porque cada grupo religioso tinha a sua concepção de messias (Guerreiro para os zelotas; Legislador para os fariseus; Profeta ascético para os seguidores do Batista, etc.). Jesus, por sua vez, não se identifica com nenhum desses e, pelo contrário, rompe com todas essas expectativas. Esta verdade é comprovada pelo fato de ter Ele morrido abandonado por quase todos, sobretudo por aqueles que, aos poucos, foram se decepcionando diante de suas palavras e ações, pois contradiziam as várias expectativas messiânicas do tempo.
Por isso, identificá-lo com “João BatistaElias ou ainda, um dos profetas” não era nenhuma novidade em relação a Jesus. Até o próprio Herodes apostava em uma dessas alternativas: “O rei Herodes ouviu falar de Jesus... e dizia-se que João Batista fora ressuscitado... Já outros diziam que era Elias... Outros que era um dos profetas. Herodes, ouvindo estas coisas, disse: ‘João, que eu mandei decapitar, foi ressuscitado” (Mc 6,14s). Até então, nenhuma novidade. Tudo o que se dizia estava dentro das possibilidades. Pedro ao responder que Jesus é o Messias também corrobora com essas expectativas. Diríamos: resposta insuficiente!!! Então, Jesus inicia uma nova etapa no processo de revelação de quem Ele é verdadeiramente, pois afirmar que é messias não basta. A primeira providência é proibir que digam isso por aí: “Proibiu-lhe severamente de falar a seu respeito”. Os discípulos ainda não estavam em condições de fazer esse anúncio, pois o distintivo essencial de Jesus, em relação aos outros messias e suas respectivas expectativas, iria ser consolidado pelo seu testemunho extremo morrendo na cruz, consequência de ter afirmado, Ele mesmo, ser Filho de Deus. Sem a cruz, é impossível dizer que Messias é Jesus. Portanto, é o próprio Jesus que antecipa essa confirmação através de três anúncios daquilo que está para acontecer em Jerusalém: Paixão, Morte e Ressurreição (Mc 8,31-32; 9,30-31;10,32-34).
A reação de Pedro confirma que, de fato, a sua resposta era insuficiente. Ouvir que Jesus iria sofrer, morrer e ressuscitar era algo totalmente inaceitável para o tal messias esperado, pois este deveria ser vitorioso e instaurar o seu reino com força e poder. Marcos diz que Pedro, ao ouvir esse anúncio, repreendeu Jesus empurrando-o para fora do caminho. Aparente solicitude de ardente zelo pelo seu Mestre-Senhor-Cristo, mas na verdade, uma astúcia perigosa e ameaçadora que punha em risco tudo aquilo que, em Jesus, era o distintivo dos outros pretensos messias, cuja mentalidade era mundana e aproveitadora diante da ignorância e ansiedade do povo (“Pensas como os homens”).
Dramaticamente, agora revela-se a identidade daquele que foi chamado para ser discípulo: “Satanás!”. Chamando-o assim, Jesus não está realizando uma sessão de exorcismo em Pedro, como se ele tivesse sido tomado por um espírito imundo que lhe fazia dizer coisas de modo inconsciente. Não foi exorcismo, mas brado de conversão: “Vai para trás de mim!!!”. É comum entendermos essas palavras de Jesus como se fossem uma ordem para Pedro ir para longe Dele, mas a construção sintática grega permite uma outra possibilidade de tradução, que no contexto literário imediato se justifica. Literalmente a ordem de Jesus é: “Vai para trás de mim” (grego: opiso mou), pois logo em seguida no versículo 34 encontramos a mesma expressão no convite dirigido a todos que desejarem ser discípulos: “Se alguém quiser vir após mim” (opiso mou).
No caminho do discípulo, responder: “Quem é Jesus?” é algo imprescindível para prosseguir, e só daremos a resposta completa, suficiente, se tivermos a convicção e clareza daquilo que nós somos Dele. Seremos um Satanás, um adversário, se nos colocarmos na frente Dele, impondo-lhe o que gostaríamos que Ele fosse segundo as nossas comodidades, evitando a cruz. Assim se fez Pedro, quando quis tirar Jesus do caminho do Messias sofredor, tentando afastá-lo da cruz, verdadeira prova de que Ele era o Filho de Deus (Mc 15,39). Mas Jesus não desistiu do seu discípulo, renovou-lhe o convite original: “Segue-me” (1,17); pois é a condição era ir para trás Dele, isto é, converte-se em discípulo, seguidor. Cabe-nos verificar onde estamos no caminho: à frente ou atrás!!!  Pe. André Vital Félix da Silva.
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Para a celebração da Palavra: (Diáconos e Ministros da Palavra):

Louvor (quando o pão consagrado estiver sobre o altar)
- Por Jesus, Com Jesus e Em Jesus, na força do Espírito Santo, louvemos ao Pai:
T: Pai, nós cremos que Jesus é o nosso salvador.
- Senhor, nós vos louvamos e agradecemos por nos enviar vosso Filho. Ajudai-nos a entender os vossos projetos de amor que nos conduzem a felicidade.
T: Pai, nós cremos que Jesus é o nosso salvador.
- Senhor, sois bondade e amor nos enviando vosso Filho para nos ensinar o bom caminho. Dai-nos coragem para que sigamos os passos de vosso Filho na prática do amor para com todos.
T: Pai, nós cremos que Jesus é o nosso salvador.
- Senhor, sabemos que pelo nosso batismo fomos chamados a ser profetas no anúncio da Boa nova, através da prática do amor. Pai, fortalecei-nos com vossa graça.
T: Pai, nós cremos que Jesus é o nosso salvador.
- Senhor, Enviai-nos a fortaleza do Espírito Santo para que saiamos de nosso egoísmo e sejamos força ao injustiçado e instrumentos da paz e do perdão.
T: Pai, nós cremos que Jesus é o nosso salvador.

 RITO DA COMUNHÃO (Diáconos e Ministros da Palavra)
Pres.: Rezemos, com amor e confiança, a oração que o Senhor Jesus nos ensinou: T.: Pai nosso...
Pres.: Livrai-nos de todos os males, ó Pai, e dai-nos hoje a vossa paz. Ajudados pela vossa misericórdia, sejamos sempre livres do pecado e protegidos de todos os perigos, enquanto, vivendo a esperança, aguardamos a vinda de Cristo Salvador.
T.: Vosso é o reino, o poder e a glória para sempre!
Pres.: Senhor Jesus Cristo, dissestes aos vossos Apóstolos: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz”. Não olheis os nossos pecados, mas a fé que anima vossa Igreja; dai-lhe, segundo o vosso desejo, a paz e a unidade. Vós, que sois Deus, com o Pai e o Espírito Santo. Amém.
Pres.: A paz do Senhor esteja sempre com todos vocês!
T.: O amor de Cristo nos uniu.
Pres.: Meus irmãos, saudai-vos uns aos outros em Cristo.
Pres.: (mostrando a hóstia consagrada) Eu sou o Pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão, viverá eternamente. Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Eu sou a videira e vós sois os ramos. Quem permanecer unido a mim, este dará muito fruto. Eu sou o bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida pela sua ovelha. Vós que estais cansados e fatigados, vinde a mim e Eu os aliviarei de vossos fardos. ... Felizes os convidados para a ceia do Senhor! Eis o Cordeiro de Deus, Eis aquele que tira o pecado do mundo.
T.: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo. 
Pres.: (Que o Corpo de Cristo nos guarde para a vida eterna). T: Amém.  
- Comunhão

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

23º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO B, homilias, subsídios homiléticos


23º DOMINGO DO TEMPO COMUM ANO B 2018 (Adaptado pelo Diácono Ismael)

Tema: “Ele tem feito bem todas as coisas!” Deus quer nos transformar para que tenhamos vida plena.
Na primeira leitura, um profeta no exílio na Babilônia garante aos exilados que Jahwéh está prestes a vir ao encontro do seu Povo para o libertar: os cegos contemplarão a luz, os surdos ouvirão, os coxos que saltarão e os mudos cantarão.
No Evangelho, Jesus abre os ouvidos e solta a língua de um surdo-mudo… Jesus, revela-se esse Deus amor.
A segunda leitura Convida-nos a não discriminar ou marginalizar o irmão e a acolher com bondade os pobres.
PRIMEIRA LEITURA (Is 35,4-7a) Leitura do Livro do Profeta Isaías. Dizei às pessoas deprimidas: “Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para vos salvar”. Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d’água.
AMBIENTE - O autor escreve na fase final do exílio na Babilónia (550 a.C.). A intenção é consolar os exilados.

MENSAGEM - O Povo, exilado na Babilónia, está em desespero e sem esperança. O profeta anuncia-lhes a libertação. Deus não esqueceu o seu Povo. O próprio Jahwéh irá realizar a libertação. O encontro com o Deus libertador transformará o Povo, dar-lhe-á de novo a liberdade, a alegria  e a vida em abundância. O dom de Deus manifestar-se-á na própria natureza. O deserto transformar-se-á numa terra fértil, com água em abundância e onde o Povo não terá dificuldade em saciar a sua fome e a sua sede. A abundância de água no deserto, de que o profeta fala, é outra imagem para mostrar a vontade de Deus em acumular o seu Povo de vida plena e abundante.
A marcha será um novo êxodo, onde se repetirão as maravilhas operadas pelo Deus libertador; este segundo êxodo será ainda mais grandioso, quanto à manifestação e à ação de Deus. Será uma peregrinação festiva, solene, feita na alegria e na festa.

ATUALIZAÇÃO • Para os optimistas, o nosso tempo é um tempo de grandes realizações, de grandes descobertas; para os pessimistas, o nosso tempo é um tempo de sobreaquecimento do planeta, de subida do nível do mar, de destruição da camada do ozônio, de eliminação das florestas, de risco de holocausto nuclear…
• Para os crentes, “Deus está aí”: a sua intervenção faz com que o deserto se revista de vida e que na planície árida do desespero brote a flor da esperança. Aos cegos Deus irá oferecer a luz que indica o caminho para a felicidade; aos surdos Deus abrirá os ouvidos para que escutem os gritos de sofrimento dos; aos coxos, que estão presos por cadeias de opressão, de injustiça, de pecado, Deus vai oferecer a liberdade; aos mudos, pelo medo, pelo comodismo, pela preguiça, pela passividade, Deus vai enviá-los como mensageiros da justiça, do amor e da paz.
•  Quando todos cruzam os braços e se afundam no desespero, o profeta é capaz de olhar para o futuro com os olhos de Deus e ver, para lá do horizonte, um amanhã novo. Ele vai fazer com que o desespero se transforme em alegria e que o imobilismo se transforme em luta empenhada por um mundo melhor.
7. SALMO RESPONSORIAL / Sl 145/146
Bendize, ó minha alma ao Senhor. Bendirei ao Senhor toda a vida!
• O Senhor é fiel para sempre, / faz justiça aos que são oprimidos; / ele dá alimento aos famintos, / é o Senhor quem liberta os cativos.
• O Senhor abre os olhos aos cegos; / o Senhor faz erguer-se o caído; / o Senhor ama aquele que é justo. / É o Senhor quem protege o estrangeiro.
• Ele ampara a viúva e o órfão, / mas confunde os caminhos dos maus. / O Senhor reinará para sempre! / Ó Sião, o teu Deus reinará / para sempre e por todos os séculos!
EVANGELHO (Mc 7,31-37) Proclamação do Evangelho de Jesus Cristo segundo Marcos.
Naquele tempo, Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole. Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele. Olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!” Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam. Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar”.
AMBIENTE A Decápole (“dez cidades”) era o nome dado ao território situado na Palestina oriental, estendendo-se desde Damasco, ao norte, até Filadélfia, ao sul. O nome servia para designar dez cidades, que se formou depois da conquista da Palestina pelos romanos, no ano 63 a.C.. As “dez cidades” estavam em território pagão, considerado pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação. É nesse ambiente que o episódio da cura do surdo-mudo nos vai situar. O gesto de Jesus de curar o surdo-mudo deve ser visto como mais um passo no anúncio do Reino de Deus.
MENSAGEM - As pessoas que trouxeram o surdo-mudo suplicaram a Jesus. Na sequência Marcos descreve como Jesus curou o doente e lhe deu a possibilidade de comunicar.
A descrição de Marcos, enriquecida com um número significativo de elementos simbólicos, é uma catequese sobre a missão de Jesus e sobre o papel que Ele desenvolve no sentido de fazer nascer um Homem Novo. Vejamos:
1 No centro da cena está Jesus e o surdo-mudo (literalmente, “um surdo que tinha também um problema na fala”). Se a linguagem é um meio privilegiado de comunicar, de estabelecer relação, o surdo-mudo é um homem que tem dificuldade em estabelecer laços, em partilhar, em dialogar, em comunicar. Por outro lado, num universo religioso que considera as enfermidades físicas como consequência do pecado, o surdo-mudo é, de forma notória, um “impuro”, um pecador e um maldito. Finalmente, o surdo-mudo vive no território pagão da Decápole: é provavelmente um desses pagãos que a teologia judaica considerava à margem da salvação.
2 Na catequese de Marcos, este surdo-mudo representa todos aqueles que vivem fechados no seu mundo, na sua autossuficiência, fechados às propostas de Deus e fechado aos outros. Representa também os pecadores, incapazes de estabelecer uma relação verdadeira com Deus, de escutar a Palavra de Deus e de viver de forma coerente com os desafios de Deus.
3. O encontro com Jesus transforma a vida desse surdo-mudo. Jesus abre-lhe os ouvidos e solta-lhe a, tornando-o capaz de comunicar, de escutar, de falar, de partilhar, de entrar em comunhão. O episódio lembra-nos o anúncio de Isaías na primeira leitura: “Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-vos. Jesus é o Deus que veio ao encontro dos homens, a fim de os libertar das cadeias do egoísmo, do comodismo, da autossuficiência, dos preconceitos que impedem a relação com Deus e com os irmãos.
4. Não é o surdo-mudo que tem a iniciativa de se encontrar com Jesus (“trouxeram-Lhe”). O surdo-mudo não sente necessidade de abrir seu coração para o encontro com Deus e com os irmãos. É preciso que alguém o traga, que o apresente a Jesus, que o empurre para essa vida nova de amor e de comunhão. É esse o papel da comunidade cristã… Os que já descobriram Jesus, que se deixaram transformar pela sua Palavra, que aceitaram segui-lo, devem dar testemunho dessa experiência e desafiar outros irmãos para o encontro libertador com Jesus.
5. A sós com o surdo-mudo, Jesus realiza gestos significativos: mete-lhe os dedos nos ouvidos, faz saliva e toca-lhe com ela a língua. Tocar com o dedo significava transmitir poder; a saliva transmitia, pensava-se, a própria força ou energia vital (equivale ao sopro de Deus que transformou o barro inerte do primeiro homem num ser dotado de vida divina). Assim, Jesus transmitiu ao surdo-mudo a sua própria energia vital, dotando-o da capacidade de ser um Homem Novo, aberto à comunhão com Deus e à relação com os outros homens.
6.. Jesus teria pronunciado a palavra “effathá” (“abre-te”), quando abriu os ouvidos e desatou a língua do surdo-mudo. Não se trata de uma fórmula mágica … É um convite ao homem fechado no seu mundo pessoal a abrir o coração à vida nova da relação com Deus e com os irmãos. É um convite ao surdo-mudo a sair do seu fechamento, do seu comodismo, do seu egoísmo, da sua instalação, para fazer da sua vida uma história de comunhão com Deus e de partilha com os irmãos. O processo de transformação do surdo-mudo em Homem Novo não é um processo em que só Jesus age e onde o homem assume uma atitude de passividade; mas é um processo que exige o compromisso ativo e livre do homem. Jesus faz as propostas, lança desafios, oferece o seu Espírito que transforma e renova o coração do homem; mas o homem tem de acolher a proposta, optar por Jesus e abrir o coração aos desafios de Deus.

ATUALIZAÇÃO •  Deus cheio de amor, a cada instante, vem ao nosso encontro, convida-nos aos caminhos que nos conduzem à felicidade e à vida verdadeira.
• O surdo-mudo, incapaz de escutar a Palavra de Deus, representa esses homens que vivem fechados aos projetos e aos desafios de Deus.
• O surdo-mudo representa também aqueles que não se preocupam em comunicar, partilhar a vida, dialogar com outros… vive instalado nas suas certezas e nos seus preconceitos, convencido de que é dono da verdade. É aquele que não tem tempo para o irmão; não é tolerante, não compreende os erros dos outros e não sabe perdoar. Uma vida de “surdez” é uma vida vazia, estéril, triste, egoísta, fechada, sem amor.
• O surdo-mudo se fecha no egoísmo e no comodismo, indiferentes aos apelos dos irmãos. Somos surdos quando não escutamos os injustiçados; surdos quando toleramos injustiça, miséria, sofrimento e morte; somos surdos quando encolhemos os ombros, indiferentes, face à guerra, à fome, à injustiça, à doença, ao analfabetismo; somos surdos quando temos vergonha de testemunhar os valores em que acreditamos; somos surdos quando  não assumimos responsabilidades e deixamos que sejam os outros a comprometer-se; somos surdos quando calamos; Uma vida comodamente instalada nesta “surdez” descomprometida é uma vida que vale a pena ser vivida?
• A missão de Cristo consistiu precisamente em abrir os olhos aos cegos e desatar a língua dos mudos… Ele veio abrir-nos à relação com Deus, ao amor dos irmãos, ao compromisso com o mundo. Quem adere a Cristo e quer segui-lo no caminho do amor a Deus e da entrega aos irmãos, não pode resignar-se a viver fechado a Deus e ao mundo. O encontro com Cristo tira-nos da mediocridade e desperta-nos para o compromisso, para o testemunho. Ainda somos os surdo-mudo, ou ainda não assumimos a missão que Cristo nos deixou?.
• Cristo lembra-nos o nosso papel de fazer a ponte entre os irmãos que vivem prisioneiros da “surdez” e a proposta libertadora de Jesus Cristo. Não podemos ficar de braços cruzados quando algum dos nossos irmãos se instalam em esquemas de fechamento, de egoísmo, de autossuficiência; mas, com o nosso testemunho de vida, temos de lhe apresentar essa proposta libertadora que Cristo quer oferecer a todos os homens.
• Antes de curar o surdo-mudo, Jesus “ergueu os olhos ao céu”. O gesto de Jesus recorda-nos que é preciso manter sempre, no meio da ação, a referência a Deus. É necessário dialogarmos continuamente com Deus para descobrir os seus projetos, para perceber as suas propostas, para ser fiel aos seus planos; é preciso tomar continuamente consciência de que é Deus que age no mundo através dos nossos gestos; é preciso que toda a nossa ação encontre em Deus a sua razão última: se isso não acontecer, rapidamente a nossa ação perde todo o sentido.
SEGUNDA LEITURA (Tg 2,1-5) Leitura da Carta de São Tiago. Meus irmãos: a fé que tendes em nosso Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas. Pois bem, imaginai que na vossa reunião entra uma pessoa com anel de ouro no dedo e bem vestida, e também um pobre, com sua roupa surrada, e vós dedicais atenção ao que está bem vestido, dizendo-lhe: “Vem sentar-te aqui, à vontade”, enquanto dizeis ao pobre: “Fica aí, de pé”, ou então: “Senta-te aqui no chão, aos meus pés”. Não fizestes, então, discriminação entre vós? E não vos tornastes juízes com critérios injustos? Meus queridos irmãos, escutai: não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?
AMBIENTE - O objetivo fundamental do autor é exortar os crentes para que não percam os valores cristãos herdados através dos ensinamentos de Cristo. A fé concretiza-se no amor ao próximo, sem qualquer discriminação.
MENSAGEM - Jesus a todos amou igualmente. Quem aderiu a Jesus Cristo e procura segui-lo, tem de assumir os mesmos valores; por isso, não pode marginalizar ninguém.
Na comunidade cristã, todos são iguais e dignos de consideração e de respeito, ainda que desempenhem funções diferentes e serviços diversos. Os “pobres deste mundo” são, na linguagem bíblica, os humildes, os débeis, os pacíficos, aqueles que se apresentam diante de Deus numa atitude de simplicidade, despidos de qualquer atitude de orgulho, de autossuficiência, de preconceitos; são aqueles que, com humildade, aceitam os dons de Deus e acolhem as suas propostas com alegria e gratidão. Porque é que Deus os prefere? Em primeiro lugar, porque são os que mais necessitam de ser libertados e salvos; em segundo lugar, porque são os mais disponíveis para acolher o dom do reino. Não é que o reino de Deus seja uma opção de classe e que os ricos e poderosos não possam ter acesso ao reino; mas os ricos com o coração cheio de orgulho e de autossuficiência, não estão disponíveis para acolher a novidade revolucionária e libertadora do reino… São os “pobres”, na sua simplicidade, humildade e despojamento, na sua ânsia de libertação, que estão preparados para acolher o dom de Deus que se torna presente em Jesus e no seu projeto.

ATUALIZAÇÃO - • O cristão que aderiu a Jesus Cristo, que assumiu os valores que Ele veio propor, procura concretizar essa proposta de vida que Ele veio fazer. A comunidade cristã é o rosto de Cristo para os homens; por isso, não faz sentido qualquer acepção de pessoas na comunidade cristã. Não esqueçamos: a comunidade cristã é chamada a testemunhar o amor, a bondade, a misericórdia de Cristo para com todos os irmãos, sem exceção.
•  A fraternidade, o amor, a misericórdia, a tolerância que Cristo nos propõe têm de derramar-se sobre aqueles que encontramos em cada instante, mesmo se são de outra raça, outra cultura, se frequentam ambientes diversos, se não concordam com as nossas ideias, se têm uma forma diferente de encarar a vida.
•  Deus oferece o seu amor, a sua graça e a sua vida a todos; contudo, uns acolhem os seus dons e outros não… O que é decisivo, na perspectiva de Deus, é a disponibilidade para acolher a sua proposta e os seus dons. O nosso texto convida-nos a despir-nos do orgulho, da autossuficiência, dos preconceitos, para acolher com humildade e simplicidade os dons de Deus.

Pe. Joaquim, Pe. Barbosa, Pe. Ornelas

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Homilia do Pe. Pedrinho

Na primeira leitura, Isaías nos diz: você deve ficar com ânimo, dizer à pessoa deprimida: se você está com depressão, crie ânimo, “não tenha medo”. A Palavra de Deus é sempre esta para todo mundo: “não tenha medo”; só tem medo quem não tem a quem recorrer. Veja o que a criança faz, quando está com medo à noite. Ela vai ao quarto da mãe/pai e fala que está com medo; aí passa o medo, porque ela tem a quem recorrer.
Nós também temos a quem recorrer! Recorremos a Deus. “Não temais”. Começa o texto: “Criai ânimo e não temais. Eis o vosso Deus”.
Por que eu sei que Ele veio para me salvar?
Porque vai abrir os olhos dos cegos, vai abrir os ouvidos dos surdos, os coxos saltarão como cervos, a língua dos mudos cantará, as águas arrebentarão no deserto.
E o que Jesus fez? Jesus fez tudo isto. As pessoas perguntar por que Jesus não acabou com a surdez? Não acabou com a cegueira? Não acabou com a paralisia? Porque não é papel de Deus acabar com tudo isto. Isso é papel nosso. Nós devemos usar a inteligência para buscar todo o recurso para todos ouvirem, para todos falarem, para todos andarem. Ele quis, porém, mostrar que está conosco.
Ele cura algumas pessoas para dar um sinal de que Ele é Deus, de que não devemos esperar outro. Por isso Ele vai abrir o ouvido do surdo no Evangelho e diz que o surdo começa a falar. Qual é o gesto que Jesus realiza? Ele impõe as mãos, coloca as mãos nos ouvidos. Ora, quando é que Deus nos impõe as mãos? Na Crisma. Quando é que nós somos chamados a abrir os nossos ouvidos? No Batismo. Então é importante entendermos que todos aqueles que recorrem a Deus, passam a ouvir com ouvidos de Deus e passam a falar a Palavra de Deus.
Se há gente que diz que não entende a Bíblia, precisa recorrer a Jesus, para que Ele possa abrir sua mente, abrir o ouvido para ouvir a Deus e possa abrir sua boca para falar de Deus. Mas quem pode isso? Só os estudados? É outra confusão que fazemos. Todas as pessoas estão convidadas a fazer parte do povo de Deus, a partir dos mais pobres.
Mas como a partir dos pobres, se Deus não faz diferença de ninguém? É bom a gente saber que, no tempo de Jesus, a pessoa pobre era interpretada como sendo alguém que Deus estava castigando, porque ela não foi fiel a sua Palavra. A Bíblia dizia o seguinte: quem obedecer a Deus, vai ser recompensado inclusive, com bens materiais.
Assim cada vez que alguém olhava um pobre, dizia com certeza que ele não obedeceu a Deus, senão ele estaria rico e não seria pobre.
Jesus veio dizer que esta mentalidade está errada. Que todos são chamados a ouvir a Palavra, até os pobres. O que significa? Se você não viveu a vontade de Deus, não seguiu a vontade de Deus, tudo bem; daqui para frente o que você quer? Quero ouvir, então abra os ouvidos, desenrole a língua e vamos ouvir.
Então, todos a começar dos pobres, inclusive os homens de boa vontade, são chamados a experimentar o amor, de tal maneira que somos chamados a tratar todos com a mesma igualdade. São Tiago puxa a orelha de quem se serve da aparência das pessoas; não é porque está bem vestido que vai ter tratamento diferente do outro que está mal vestido. A pessoa está mal vestida por conta do que? Do desleixo. É obrigação minha ajudá-la para que tenha autoestima. Se a pessoa está mal vestida porque não tem condições econômicas, eu sou chamado a ajuda-la. Se eu também não osso, sou chamado a acolhê-la da forma que está. O que eu não posso é rejeitar alguém porque não se traja de acordo com o padrão que eu vivo, bonito, adequado.
Repito: se alguém está mal vestido por desleixo, tenho que ajudar a pessoa adquirir a autoestima; se está mal vestida porque não tem dinheiro, se eu posso, sou chamado a ajudar. Se eu não posso, Deus vai acolher da mesma forma, porque realmente o que importa é o ser humano ser tratado com a mesma dignidade.
Deus fez tudo isso! O Evangelho diz que Ele tem feito bem todas as coisas; aos surdos faz ouvir, aos mudos, falar. Nós não somos surdos, porque todos os finais de semana nos encontramos para ouvir a Palavra de Deus. Graças a Deus que não somos surdos. Aqueles que não ouvem e voltam, são chamados a abrir os ouvidos para que possam ouvir a Palavra. Aqueles que são judôs, são chamados a soltar a voz para que a Palavra de Deus seja transmitida e ouvida em todos os lugares.
Que Deus nos ajude, portanto, a nos manter perseverantes, eliminando a surdez da fé do mundo e anunciando a Palavra de Deus para que ninguém seja exceção e para que todos não tenham medo, mas ao contrário, que consigam enfrentar os desafios da vida, ajudados pelo Nosso Senhor que nos ampara e nos guarda em seu coração. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo.

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Os Sinais Messiânicos

No mês de setembro, dedicado à Bíblia, a Palavra de Deus de hoje nos fala dos sinais dos tempos messiânicos, com os quais Deus manifesta seu Plano de amor e de libertação para todo seu povo.

Na 1a leitura, o Profeta anuncia ao povo sofrido do exílio um sinal da iminência da sua libertação: a cura de
surdos, mudos, coxos e cegos. (Is 35,4-7)

 * Para os judeus, esses sinais serão sinal que chegou o Messias.

Na 2ª Leitura, Tiago convida a não discriminar as pessoas e a acolher com especial bondade os pequenos e os pobres. (Tg 2,15)

No Evangelho temos a realização da profecia da 1ª leitura: (Mc 7,31-37)

- Jesus abre os ouvidos e solta a língua de um surdo-mudo.
- E o povo, entusiasmado, vê nessa cura um SINAL da presença do Poder salvífico do Messias e exclama:
  "Tudo ele tem feito bem. Faz os surdos ouvirem e os mudos falarem".
- Como na "criação", quando Deus viu que tudo era bom. (Gn 1,31)

Quem é o surdo-mudo?

É uma pessoa incapaz de escutar... de falar... (a palavra).
- O que seriamos nós sem o uso da PALAVRA?

A Palavra é o meio por excelência de comunicação do homem

- A CRIANÇA não precisa só de alimento, ela necessita também de palavras de carinho;
- Os NAMORADOS têm necessidade de traduzir em palavras os sentimentos de seu coração;
- A Palavra acompanha o nascimento e o desenvolvimento de todo AMOR e AMIZADE;
- Os MUDOS convertem seus gestos em palavras.

Há palavras vazias que não dizem nada… mas há também palavras, que carregam todo o peso de uma existência.

+ Deus também fez uso da Palavra.

Não quis apenas que sua palavra fosse lida e ouvida...
Quis que fosse também vista, andando no meio dos homens.
Ele próprio SE FEZ PALAVRA, na pessoa de Jesus Cristo.

E essa Palavra de Deus ainda hoje a encontramos em parte escrita num livro que chamamos de BÍBLIA
Muito se perdeu ao longo da história…
Muito ainda permanece escondida em nossos corações e aguarda que a escutemos e anunciemos.
É o que nos lembra São Tiago: "Acolhei com humildade a Palavra que lhes foi plantada no coração". (Tg 1,21)

Quem são os surdos e mudos de hoje?

+ Diante da REALIDADE em que vivemos:
- São os que ficam indiferentes, vivem fechados no seu mundo,   de ouvidos fechados às propostas de Deus e de coração fechado aos irmãos.
   Nada vêem, nada escutam, nada falam...
   Preferem que sua voz só seja ouvida na hora de rezar, permanecendo cegos, surdos e mudos aos problemas da vida real.
- O Surdo-mudo representa os que não se preocupam em comunicar,  em partilhar a vida, em dialogar...
   * E Cristo convoca a ouvir o clamor dos que sofrem e a falar  em defesa da justiça, dos direitos humanos, na honestidade pública.
     - Quantas pessoas continuam sendo... surdo-mudas!...

+ Diante da FAMÍLIA:
   São os que não têm tempo para escutar... nem para falar...  e quando falam é bronca...
   - Quantos pais, mães, filhos... surdo-mudos!...

+ Diante da BÍBLIA:
   São os que têm os ouvidos e a boca fechados à Palavra de Deus...   
   São os que não lêem, não escutam, não estudam, não anunciam...
- Quantos católicos surdos-mudos!...
- Que tal valorizar um pouco mais a Bíblia nesse mês? 

- No Rito do Batismo, há uma oração muito significativa:
    "O Senhor Jesus, que fez os surdos ouvirem e os mudos falarem,
      te conceda que possas logo ouvir a Palavra e  professar a fé para louvor e glória de Deus Pai."

- Desde o Batismo, nossos ouvidos se abriram para escutar a Palavra e a nossa língua se soltou para professar a fé e louvar o Senhor.
Nossos ouvidos estão atentos à Palavra divina e nossa boca é Palavra de oração permanente?

O Evangelho de hoje nos fala do milagre do surdo-mudo.
Jesus tocou os ouvidos e a boca do doente e ele começou a escutar e a falar.
- A Missão da Igreja é trazer e apresentar essas pessoas a Jesus  para que Ele as liberte de todos os males...

Peçamos a Cristo, que toque também
- NOSSOS OUVIDOS para que se tornem sensíveis em escutar sua Palavra,
- NOSSOS LÁBIOS para que se tornem entusiastas em anunciá-la e
- NOSSAS MÃOS para que nos tornemos generosos em testemunhá-la…
- NOSSOS PÉS, para que desperte em nós novo ardor missionário...  
                                      
                                      Pe. Antônio Geraldo

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Homilia de D. Henrique Soares
          O Evangelho deste Domingo apresenta-nos um homem surdo e gago que é colocado diante de Jesus para que ele o cure.
Quem é o surdo-gago? É a humanidade, enquanto fechada para o dom de Deus que Jesus nos traz. Surda, porque incapaz de ouvir a Palavra, ouvi-la compreendendo-a, acolhendo-a no coração: "tem ouvido para ouvir, mas não ouve" (Jr 5,21; cf. Mt 13,14-15).
Esta é a tendência do coração humano, que a Escritura sempre denunciou: o fechamento para não acolher a proposta que Deus nos faz, de um caminho com ele, a tendência de nos fechar em nós e viver a vida como se fosse nossa de modo absoluto: "Escutai, prestai ouvidos, não sejais orgulhosos, porque o Senhor falou!" (Jr 13,15); "Ah! Se meu povo me escutasse, se Israel andasse em meus caminhos... Mas meu povo não ouviu a minha voz, Israel não quis saber de obedecer-me; então os entreguei ao seu coração endurecido: que sigam seus próprios caminhos!" (Sl 81/80,14.13). Assim, no fundo, é o fechamento para Deus, para um Deus verdadeiro, a resistência em realmente levar a sério o primeiro mandamento: "Ouve, ó Israel!" (Dt 6,4).
Nossa civilização ocidental tem sido particularmente fechada à Palavra do Senhor: construímos a sociedade e construímos nossa vida privada, nossos valores morais, nossas escolhas, do nosso modo, sem realmente ouvir a proposta e o caminho que o Senhor nos indica. Reunimos e escutamos os especialistas: economistas, antropólogos, sociólogos, sexólogos, psicólogos... mas, para nós, o Senhor não tem mais nada a dizer! Os gurus são os economistas e psicólogos, é o Paulo Coelho, são os livros de auto-ajuda... Somos uma geração de surdos!
Ora, se somos surdos, também não podemos falar com clareza: nossas idéias são embotadas, nossos debates, nossas palavras, não chegam ao essencial da vida, do sentido da existência, não podemos proclamar de verdade a alegria da salvação, da plenitude de quem sabe de onde vem e para onde vai. A comunicação se torna oca, alienada e alienante. Basta observar o que os meios de comunicação veiculam! Por isso, Jesus cura primeiro a surdez e, depois, a gagueira do homem. Quando ele puder ouvir o Senhor, tornando-se discípulo pela fé, também poderá falar, proclamar a ação de Deus em Jesus: do Deus que salva e nos mostra o sentido da vida, abrindo-nos a esperança eterna!
            Sigamos os detalhes da narração de Marcos: (1) Trouxeram o homem surdo-gago para que Jesus o curasse. "Jesus afastou-se com o homem para fora da multidão" – bem ao contrário dos curadores pentecostais de televisão, que exploram seus "milagres" e "curas" como shows, Jesus procura evitar todo sensacionalismo: ele quer encontrar-se realmente com aquele homem, pessoa a pessoa, quer que aquele homem o descubra como sua salvação; (2) "Em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele" – o homem, sendo surdo, somente poderia compreender a linguagem dos símbolos, dos sinais; é a que Jesus empregou: toca os dedos que, para os antigos, transmitiam poder (cf. Ex 8,15) e, depois, toca sua língua com a saliva, significando o dom do Espírito que cura e liberta. Para os antigos, a saliva era o Espírito em estado líquido (a idéia é estranha, mas é preciso que nos transportemos para o modo de pensar semítico)! (3)"Olhando para o céu, suspirou e disse: 'Ephatà'". Assim, Jesus indica que a salvação que ele traz procede do Pai, que o enviou. Mais ainda: ao suspirar, ao gemer, ele exprime sua compaixão, sua dor pela situação humana; (4) "Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade". Somente Jesus, com o poder do seu Espírito, pode curar o homem de seu fechamento para escutar e para proclamar. Sim, porque também nossa geração cristã é, muitíssimas vezes, covarde para proclamar, para professar sem medo e respeito humano nossa fé. O cristão ou é testemunha ou não é cristão:"Não podemos, nós, deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos. Nós somos testemunhas destas coisas, nós e o Espírito Santo" (At 4,20; 5,32)
            Este caminho do surdo-gago é urgente para o cristão: reaprender a escutar de verdade Jesus (= crer nele de verdade) e falar dele ao mundo no testemunho corajoso, pois, somente assim, a humanidade atual encontrará a paz que tanto almeja. Somente em Cristo aquilo que a primeira leitura vislumbra e anuncia de modo tão belo, pode realizar-se: "Dizei às pessoas deprimidas: 'Criai ânimo, não tenhais medo! Vede! É o nosso Deus que vem; é ele que vem para salvar!' Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos, assim como brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terá árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d'água" – Que imagens impressionantes, belas, evocativas! Quando Deus vem, quando ele está presente, tudo é vida, tudo é plenitude, tudo canta de alegria! Não é disso que nosso mundo atual tanto precisa? Mas, o homem fechado na sua soberba – nós, fechados na nossa autossuficiência e no nosso comodismo! – jamais vai experimentar isso!
Para acolher na alegria e simplicidade, é necessário reconhecer-se necessitado, como o surdo-gago, que procurou Jesus, para que lhe impusesse as mãos: somente quem é pobre diante de Deus, quem se reconhece pequeno diante do Altíssimo, pode abrir-se para a salvação e recebê-la do Senhor! Daí a lembrete de São Tiago: "Não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?" São palavras que nos incomodam e até escandalizam: Deus prefere os pobres... porque os pobres são abertos para Deus. Eles conseguem experimentar dolorosamente na carne aquilo que nós tentamos esquecer ou temos dificuldades para compreender: que somos todos pobres, necessitados, pequenos diante de Deus! Com nossas posses e nossas seguranças, apoiamo-nos em nós mesmos, tornando-nos surdos e mudos para o Senhor! O pobre é profético sempre, porque recorda o que nós somos e, quando descobrimos isso, podemos ser curados de nossa autossuficiência surda e libertados de nossa preguiça muda. O salmo da Missa de hoje canta exatamente esta experiência: Deus salva o pobre, o pequeno, o desvalido! 
            Se o pobre é sempre profeta, sempre uma palavra de Deus ao nosso lado e, mais ainda, é presença do próprio Cristo, que sendo rico se fez pobre (cf. 2Cor 8,9) - "O que fizestes ao menor dos meus irmãos, a mim o fizestes" (Mt 25,40) -, então, o nosso modo de tratar o pobre, de ver o pobre, de nos aproximar do pobre – seja pessoal, seja comunitariamente – diz muito daquilo que nós e nossa Comunidade somos em relação a Deus; diz muito dos nosso critérios: se são segundo Deus ou segundo nosso coração mundano!
            Que o Senhor nos cure da surdez e da gagueira; faça-nos atentos à sua Palavra e ao seu testemunho; dê-nos olhos para reconhecê-lo nos irmãos, sobretudo nos pobres, seja de que pobreza for... sobretudo os pobres, social e economicamente falando!

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Homilia II
            Caríssimos em Cristo, hoje a santa Palavra do Senhor nos fala de um Deus que vem. E ele vem sempre, amados! Vem porque está entre nós na potência do seu Santo Espírito, que age constantemente nos sacramentos da Igreja, que proclamam a Palavra da Salvação e tornam realidade essa Palavra salvífica! Eis, portanto, nosso Deus vem, vem sempre no seu Filho Jesus pleno do Santo Espírito. E quando ele vem, a nossa sorte muda: "Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus: é ele que vem para vos salvar! Abrir-se-ão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos... brotarão águas no deserto e jorrarão torrentes no ermo. A terra árida se transformará em lago, e a região sedenta, em fontes d'água". Ó caros! Não é coxo o mundo atual, não é cego, não é seco? Vede ao redor em que tem se tornado a nossa existência! Tanto mais o homem se feche para Deus, tanto menos vive, tanto menos se realiza, tanto menos é feliz... E, no entanto, se nos abrirmos, se nos deixarmos curar, o Senhor transformará a nossa pobre vida: nossa surdez será curada e escutaremos a doce voz do Senhor que nos guia, nossa mudez transformar-se-á em canto de exultação e da sequidão do nosso coração sem vida, a água fresca e vivificante brotará em abundância! Humanidade dura e teimosa, a nossa, que procura vida sem Deus e não encontra a não ser desilusão! Pois bem, caríssimos, é de paz, é de vida, é de felicidade que o Senhor nos fala hoje, nos fala sempre nos anúncios dos profetas! E o que eles anunciaram para os tempos do Messias, tempos de salvação, o Senhor Jesus realiza em plenitude: hoje, no Evangelho que ouvimos, ele coloca os dedos nos ouvidos dum surdo-mudo e, com a saliva, toca-lhe a língua. Que significa esse gesto? A saliva, para os judeus, era o ar feito líquido. Assim, Jesus dá seu Sopro, seu Espírito ao homem. Agora aquele zé-ninguém, aquele surdo-mudo de vida semi-humana é homem novo: pode ouvir o Senhor, pode proclamar suas maravilhas! Mas, não é isso que somos? Não é isso que devemos testemunhar com a nossa vida? 
            Recordam, irmãos amados, do rito batismal, quando o sacerdotes traçou o sinal da cruz nos nossos ouvidos e nos nossos lábios, repetindo o gesto de Jesus? Recordam quando ele exclamou: "Efatá!", como o próprio Jesus, naquele tempo? Recordam? Surdos curados por Jesus, é o que somos; mudos libertados pelo Senhor, é a nossa realidade! Agora curados, aprendamos a escutar realmente a palavra e os apelos daquele que nos curou; agora libertos, proclamemos ante o mundo incréu as maravilhas daquele que nos livrou e nos chamou das trevas para a sua luz admirável! Somos novos em Cristo, somos novas criaturas! Externemos essa realidade com nossa vida pessoal e comunitária! Ó cristão, quantas vezes será necessário exortar-te a viver de acordo com aquilo que tu és? Por que és frouxo, por que covarde, por que sem entusiasmo, por que omisso, por que és duro e surdo para a voz do teu Senhor? Por que, caríssimos meus, o nosso modo de viver não impressiona? Por que nosso testemunho do Senhor não contagia os outros? Por que nossas ações não iluminam o mundo em trevas? Porque fugimos do Senhor, porque não deixamos que ele nos toque, nos cure, nos liberte! Sufocamos a graça recebida no batismo! E como  a sufocamos? Pela vida frouxa, pela existência displicente, que não leva a sério realmente a ação libertadora do Senhor em nós! 
            Somos novos de uma nova vida! Novos, cada um de nós; novos, nós todos como Igreja! Somos a comunidade dos que experimentam essa vida nova, dos que vivem já neste mundo o sonho de um novo modo de existir. Não se trata, meus caros, de um ideal sociológico ou simplesmente humanístico: o motivo da vida nova é o Cristo de Deus que, nos dando o seu Santo Espírito, faz-nos criaturas novas, capazes de viver no seu amor e do seu amor. A Igreja é isso: uma comunhão brotada do amor do Cristo – e este amor é o Santo Espírito. Uma comunidade que vive neste Espírito, que não é o do mundo, que não é o da esquerda festiva ou da direita egoísta, do centro omisso ou dos extremos exaltados... Nossa vida, nossa inspiração, nossa força é o Espírito no qual o Pai e o Filho se amam e se dão! Pois bem! Uma comunidade que vive nesse Espírito não admite discriminações injustas, não admite o desprezo de uns pelos outros, sobretudo dos seus membros mais frágeis e pobres. Uma comunidade "espiritual" julga segundo os critérios do Evangelho e descobre que aquilo que para o mundo é frágil, é perdido, é sem valor, na verdade é o que há de mais precioso aos olhos de Deus: "Meus queridos irmãos, escutai: não escolheu Deus os pobres deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que o amam?" Aqui não se trata de bom-mocismo, de uma filantropia meramente humana; trata-se, antes, de uma consciência que brota da contemplação do próprio modo de agir de Deus: ele ama o miserável porque é misericordioso, ele se volta para o pobre, de qualquer pobreza que seja, porque nos ama gratuitamente, e lhe apraz retirar o pobrezinho do monturo e elevá-lo com os nobres do seu povo! Neste sentido, São Tiago nos chama atenção para uma realidade bem concreta, palpável em cada geração: são os pobres, os débeis, os fracos que mais têm fé, que mais se abandonam no Senhor. Quem enche nossas igrejas? Quem é mais generoso para com Deus? Quem mais se esforça para levar a sério os preceitos do Senhor? Quem mais teme a Deus? Em geral, os pobres, os sofredores, os desvalidos! E por quê? Porque ali, na humana miséria, podemos ver sem máscaras aquilo que somos o tempo todo: pobres! Ainda que não queiramos admitir, somos todos pobres, todos necessitados, todos dependentes diante de Deus. Precisamente aqui está a grande bem-aventurança: ser pobre diante de Deus. E são os pobres do mundo e os pobres de nossas comunidades quem melhor nos lembram isso! Olhemos os pobres e vejamos o que somos; sirvamos e honremos os pobres, e serviremos e honraremos aquele por quem e para quem somos! 
            Neste sentido, a segunda leitura deste hoje é um sério convite a que nos perguntemos sobre como nossa comunidade e nossa casa se comportam em relação aos pobres e carentes do mundo. Damos-lhe atenção? Preocupamo-nos com eles? Uma comunidade cristã – a de casa, da paróquia ou do grupo e movimento de Igreja – que não abra o coração para os pobres, não é comunidade cristã! É incômodo isso que eu digo; mas, é a verdade da Palavra de Deus, que não pode ser maquiada nem domesticada! Nosso comportamento em relação aos pobres definirá nossa situação para sempre diante de Cristo no Último Dia! Disso não tenhamos a mínima dúvida! Portanto, ouçamos e tremamos! 
            Caríssimos, calem no coração as palavras que o Senhor hoje nos dirigiu. E que esta Eucaristia cure nossa surdez, desate nossa língua e converta o nosso coração. Amém.
D. Henrique Soares